Todas as Mulheres têm uma fantasia...

Olhou para o número na porta e parou. Respirou fundo. Sentia uma curiosidade enorme pelo que estaria do lado de lá, mas sentia a incerteza do desconhecido.

De manhã, quando se levantara, não pensava que poderia estar aqui, agora, a meio da tarde, num corredor deserto de um hotel em frente a uma porta.

A insegurança tomou conta de sí e reviu mentalmente os passos que a haviam trazido até aqui.

A chegada ao trabalho esta manhã tinha sido como em qualquer outro dia. A diferença é que, por causa das graves de transportes, o edifício estava quase vazio, com apenas meia dúzia de pessoas que moravam perto a comparecer.

Sentou-se no seu local, em frente ao seu computador, reviu as poucas coisas que tinham transitado para o dia de hoje, tentou fazer alguns telefonemas para outras empresas e para fornecedores, mas a situação era a mesma em todo o lado.

Ao fim de pouco tempo acabou por desistir.

Resolveu entreter-se a navegar na Internet, sem rumo, de uma página para a outra…

…parou num blog de contos eróticos.

Leu um conto, e depois outro, deixou-se levar pelas palavras, sentiu-as, como se fossem dirigidas a si, sentiu a calor a espalhar-se pelo corpo, a despertá-lo, sentiu desejo.

Não quis deixar comentários, mas enviou um e-mail da sua conta pessoal a elogiar as palavras do autor do blog. Recebeu uma mensagem de resposta logo em seguida, a agradecer os elogios e com um convite para um chat.

Olhou algo desconfiada, mas a falta de proximidade, a impessoalidade da maquina que tinha à sua frente deu-lhe confiança e acabou por aceitar. Assim que entrou no chat apareceu uma mensagem.

“olá”

“olá”

“queria apenas agradecer de uma forma mais pessoal as palavras do e-mail. Gostei muito dos elogios. Obrigado”

“de nada. Adorei o que li. Foi a primeira vez que visitei o blog”

“então ainda mais agradeço. A primeira vez?”

“sim, por norma estou muito ocupada para viajar na net, mas com as greves e metade dos sítios a trabalhar a meio gás, hoje tive um bocadinho, comecei a andar de página em página e nem sei como cheguei lá, mas adorei”

“Obrigado, sinceramente. Ainda bem que tiveste algum tempo, então J. Posso perguntar quais os textos que leste?”

Embrenharam-se numa conversa que foi fluindo com facilidade, mais facilidade do que ela esperava. Pelo caminho foi notando algumas insinuações elegantes às quais ela ficava com dúvidas se seriam isso mesmo, ou se seria impressão sua pelo fogo ateado pelos textos que tinha lido. De qualquer forma sentia-se solta a falar com aquele estranho que guiava a conversa subtilmente para campos cada vez mais pessoais.

Deu consigo a confessar que os textos a haviam excitado bastante, confisão essa que foi acolhida com agrado e gratidão do outro lado.

Dai a não muito tempo descreviam-se fisicamente um ao outro, e eis que chega a pergunta:

“posso saber como é que estás vestida?”

“podes. Mas porquê?”

“para imaginar melhor…”

“não estou nada de especial, para ser franca. Tenho uma camisa branca, uma saia preta travada pelo joelho, meias de mousse pretas, sapatos de salto, e embora tenha o cabelo comprido, está apanhado.”

“só te falta uns óculos para te dar um ar de secretária executiva…”

“não faltam, e é isso mesmo que eu sou.”

“A sério?”

“mesmo”

“LOL

Mas olha, não descreveste o resto…”

“o resto?”

“Sim, falaste-me do exterior, mas tens mais coisas vestidas não tens?”

Ficou a olhar para o monitor, sem saber se havia de jogar este jogo ou não…

…mas sentiu-se marota, uma miúda a fazer uma travessura...

…e resolveu responder.

“tou a usar um soutien branco, rendado, com suporte, para não se notar por debaixo da camisa branca. A parte de baixo é um fio dental, a condizer, porque a saia é justa e não gosto do efeito que as outras cuequinhas fazem, aqueles vincos no rabo por debaixo da saia.”

“parece-me interessante. Com suporte?”

“sim, o meu peito é algo… como dizer… volumoso?”

“hummm! Boa descrição. Quase consigo imaginar. Ainda para mais se o que leste te excitou, deves ter os mamilos rijinhos e a querer furar o soutien…”

“não tanto, mas já estive em melhor estado.”

“assim como já estiveste em pior…”

“Sim”

“e queres ficar em pior?”

Aquela pergunta arrancou-lhe um sorriso, tal como a fez erguer o sobrolho enquanto parou para ler devagar as palavras. Qual o mal de ser inconsequente? O anonimato podia permitir tudo.

“porque não?” – acabou por responder.

“estás sozinha?”

“hoje estou. Por causa da greve não apareceu mais ninguém…”

“…mais vale só…”

“mas não estou propriamente só. Tenho a tua companhia, ainda que apenas virtual”

“verdade. E diz-me, sentes-te atrevida?”

“neste momento, sim…”

“como é que tens abotoada a camisa?”

“Até acima, como manda o decoro. Só não está abotoado o último botão.”

“…e não queres desabotoar?”

“não queres que eu abra aqui a camisa, assim, pois não?”

“Não, só quero que desabotoes até abaixo do peito. Para fazeres um decote.”

“gostas de ver uma camisa assim desabotoada”

“bastante. É sempre uma promessa velada. Sabes que o que fica à imaginação é bem mais excitante do que o que é explicito. Pelo menos para mim…”

“para mim também, embora eu não goste de me expor.”

“mas neste momento não te estás a expor. Afinal estás sozinha…”

Era verdade. Ainda assim hesitou um momento. Mas depois começou a desabotoar os botões uma a um. Quando chegou ao sitio desejado parou e ajeitou a camisa. O volume do seu peito fez com que o decote se abrisse naturalmente.

“já está” acabou por lhe dizer.

“consigo imaginar. Diz lá que não te sentes mais sexy?”

“por acaso, já que falas nisso, sim, sinto-me mais sexy”

E eis que se sobressalta quando batem à porta do seu gabinete. Tenta compor-se um pouco.

-Entre. – disse.

Um jovem, um dos auxiliares, entra com alguns papeis para lhe entregar.

-Bom dia, onde é que posso deixar isto?

-Pode deixar ai em cima da secretária. – respondeu ela, tentando não dar atenção ou sequer olhar para o jovem.

Ele aproximou-se, pousou os papeis e foi notória a sua perturbação quando olhou para ela, mais concretamente para o decote, tendo ruborizado. Envergonhado, saiu muito rapidamente, fechando a porta atrás de si.

“vais-te rir” – disse ela para o desconhecido.

“então?”

“tinha acabado de ajeitar o decote quando entrou um moço para me deixar uns papeis.”

“e então?”

“se visses a expressão dele LOL”

“calculo. Deve ter ficado em bom estado, o rapaz”

“se calhar…”

“e tu? Diz lá que não te sentiste bem… Poderosa, talvez?”

“sim, admito”

“ficaste mais excitada ainda?”

“com o moço? Não.”

“não com o moço, mas com o facto de despertares tão facilmente a atenção. Polimento ao ego LOL”

“bem, sim, isso admito”

“Vou-te fazer um desafio”

“não sei se quero ser mais desafiada…”

“fica nas tuas mãos”

“então diz”

“levanta-te e vai trancar a porta do gabinete.”

Ela olhou para o relógio, era praticamente hora do almoço e tinha de admitir que este estranho a deixava curiosa. E se é verdade que a curiosidade matou o gato, também o é que quem não arrisca não petisca. Levantou-se, dirigiu-se à porta, trancou-a por dentro, voltou a sentar-se.

“já está. E agora?”

“agora toca-te por dentro da camisa. Sente o teu peito. Gostas de te tocar?”

Ela fez isso mesmo, sem questionar. Pôs uma mão por dentro da camisa e começou a acariciar o seu peito por cima do soutien. Soube-lhe bem, mas não só o toque, também a sensação de proibido que tudo aquilo lhe estava a proporcionar. O toque soube-lhe a pouco.

“gosto de me tocar” escreveu vagarosamente com a mão disponível.

Fez descer um pouco o soutien de um dos lados por forma a destapar o mamilo e começou a acariciá-lo sentindo-o cada vez mais duro à medida que a excitação se apossava dela.

“diz-me o que estas a fazer”

“desci um pouco o soutien e estou a acariciar o mamilo”

“molha os dedos com a língua e ensaliva o mamilo”

Ela obedeceu.

“já está”

“agora sopra…”

Ela fê-lo e o mamilo endureceu ainda mais com o frio do ar que passava sobre o molhado. Sentia o seu sexo a pulsar, sentia-se molhada.

“…é bom?”

“muito”

“estás ainda mais excitada?”

“sim”

“Estás com tesão? Apetecia-te foder”

“tanto”

“toca-te”

Ela nem pensou, levou as mãos ao meio das penas e começou a comprimir o clitóris ritmadamente por cima das meias e do fio dental que tinha vestido.

“estás a tocar-te?”

“sim” teclou com algum custo. Cada vez mais era difícil concentrar-se.

“como?”

“por cima da roupa, mas estou tão molhada que sinto a humidade nos dedos”

“mete a mão por debaixo da roupa e masturba-te para mim”

“e tu?”

“eu estou a tocar-me para ti”

Ela fê-lo, recostou-se na cadeira, abandonou-se à sensação, libertou os sentidos e deixou-se embalar até um orgasmo pulsante que a fez ignorar por completo o sitio onde estava.

Quando finalmente recuperou a compostura ele estava “offline” e ela ficou sem saber o que fazer. Mas acabou por sorrir, encolheu os ombros, levantou-se, arranjou-se, recuperou o ar profissional, mas não deixava de olhar para o chat e para o e-mail, à espera de algo mais.

Ao fim de uma hora, nada tinha acontecido. Este desconhecido espicaçava-lhe mesmo a curiosidade. Acabou por se decidir a enviar um e-mail.

“obrigado pela pedrada na monotonia” dizia simplesmente.

Trinta segundos depois tinha a resposta.

“Hotel X, quarto 415, às 16:00 Horas. Bate à porta. Espero-te”

Deu uma gargalhada quando leu o e-mail.

-Vai sonhando… - disse em voz alta.

Mas a verdade é que à medida que as horas iam passando a curiosidade ia aumentando e a luxúria e a tesão que tinha sentido não desapareciam, parecia que, antes pelo contrário se intensificavam, como se o convite explícito lhe causasse aquele fogo.

Passava pouco das três e meia quando se levantou, vestiu o casaco e saiu porta fora em direcção ao hotel…



No elevador tinha repetido de diversas formas uma qualquer espécie de apresentação ao desconhecido que a aguardava, ensaiado sorrisos, gestos, mas de alguma forma todos pareciam ocos e artificiais.

Afinal de contas, nada se adequava às circunstâncias. Não sabia o que esperar, sentia medo, mas ao mesmo tempo uma curiosa excitação.

E eis que se encontrava agora aqui, à porta do quarto indicado, sem saber o que fazer. Olhou para o relógio. Passavam dois minutos da hora marcada.

Respirou fundo.

Bateu à porta meio a medo e esperou uns instantes.

-Está aberta. - Ouviu uma voz abafada do outro lado.

Ficou a pensar que esperava um pouco mais de cavalheirismo, mas, por outro lado não fazia ideia do que estaria para lá da porta.

Abriu a porta.

A sala tinha as paredes brancas, dois sofás de veludo para uma pessoa em tons encarnado escuro, e uma pequena mesa de suporte com uma garrafa de vinho tinto e alguns copos, estando apenas um deles cheio.

Um homem, elegante, vestido num fato azul-escuro, levanta-se quando ela entra, dirige-se a ela de uma forma absolutamente calma.

-Perdoe-me o facto de não lhe vir abrir a porta, mas queria que a escolha de entrar ou não fosse única e exclusivamente sua. – disse, e cumprimentou-a de forma cordial, formal mesmo.

-Não faz mal. Compreendo.

-Aceita um copo de vinho?

-Sim pode ser.

-Sempre ajuda a descontrair, não é? – perguntou ele enquanto servia o copo.

Ela sorriu, algo nervosa.

Ele acabou de servir o copo dela, mas pousou-o na mesa. Voltou-se para ela.

-Não quer tirar o casaco? Parece estar pronta a fugir…

Ela assentiu com a cabeça e ela aproximou-se e num gesto delicado ajudou-a a tirar o casaco, pendurando-o em seguida num bengaleiro próximo. Depois, convidou-a a sentar-se no local que não estava antes ocupado, o que ela fez, pegaram nos copos. Ele fez um pequeno gesto de saúde e beberricou. Ela, talvez fruto do nervoso, sorveu o liquido de uma vez, sentindo logo em seguida as faces ruborizar.

Ele sorriu e, quando ela pousou o copo, limitou-se a servi-la novamente. Ela voltou a pegar nele e desta vez deu apenas um pequeno gole. Olhou para ele, e viu um homem com um ar jovial, com uma maneira de estar e de ser a um tempo soltas e desprendidas, mas também perfeitamente suaves e cavalheirescas. Não era brusco, nem no olhar, nem no movimento, mas era absolutamente intenso e, contrastando consigo própria, não aparentava estar minimamente nervoso.

Olhou então em volta, percebendo que aquela sala era apenas a antecâmara do resto do quarto e para além de um pequeno corredor estava uma enorme cama.

Ele limitou-se a observá-la em silêncio e ela sentia-se constrangida, sem saber como agir. Resolveu-se a falar, por fim.

-Peço desculpa mas, como deve calcular, toda esta situação é uma novidade para mim…

-Acredito, mas não tem porque estar constrangida.

-Sabe, sou casada, adoro o meu marido…

-Percebe-se. No entanto, todas as mulheres têm uma fantasia, não é? Não é excepção…

-Mas nem sei como agir…

Ele sorriu.

-Porque é que não começa por fazer um strip?

-Para si?

-Não. Para si.

Ela pegou no copo, deu um gole pequeno, mas não se conteve e bebeu o resto de uma só vez em seguida. Ele sorriu do nervosismo dela, levantou-se e abriu uma porta completamente espelhada por trás, no lado completamente oposto aos sofás, naquela divisão. Depois, estendeu-lhe a mão, convidando-a a ir para junto dele.

Ela hesitou por uns momentos, mas acabou por ceder, levantando-se e juntando-se a ele. Ele guiou-a ate estar em frente ao espelho, pôs-se por trás dela, colocando-lhe as mãos nos ombros e olhando-a profundamente no reflexo dos seus olhos.

-É uma mulher lindíssima, madura e sensual. Quando foi a ultima vez que se despiu apreciando-se? Mas apreciando-se devidamente?

Ela não tinha resposta. Não se lembrava. Se calhar nunca.

Ele saiu de trás de si, voltou ao sofá e sentou-se, observando tanto as suas costas como o seu reflexo no espelho. Ela olhou-se de alta abaixo. Sentia-se sexy.

Nervosamente, começou a desapertar a camisa. Resolveu levar o seu tempo, não o fazendo de forma automática mas sim deliberadamente, abrindo a camisa a cada botão, vendo-se, vendo a pele a ficar destapada, sentindo-se mais solta a cada gesto deliberado. Acaba de desabotoar a camisa, mas deixa-a vestida, soltando o cabelo e abanando a cabeça para fazer o cabelo ficar mais natural, e só em seguida desaperta os botões dos punhos. Concentra-se só em si, embora esteja consciente da presença dele. Exibe-se a ambos, enquanto tira a camisa de costas bem erguidas, erguendo o peito e apercebe-se, num exercício puramente narcisistico que é apetecível.

Num gasto lento, penosamente lento e sensual, desaperta a saia e fá-la deslizar ao longo das pernas, até ao chão, curvando-se, exibindo-se e sentindo o contorno das suas pernas. Ergueu-se novamente, deu um pequeno passo atrás para sair de dentro da saia. Apreciou-se vestida apenas de saltos altos, maias pretas com cinto de ligas, fio dental e soutien brancos. Estava excitada. Olhou para o reflexo dele no espelho e era óbvio que estava cativo de cada movimento seu. Liberta, provocou-o deliberadamente enquanto tirava o soutien languidamente, até deixar os seus peitos desnudos e soltos.

Observou-se ao espelho. Sentia-se molhada e pronta para se deitar com ele, e o sentimento só a excitava ainda mais…

…e eis que os seus pensamentos são interrompidos quando alguém bate à porta.

Sobressaltou-se, olhou para a porta e olhou para ele, que continuava a exibir uma calma e um controle fora do comum, calma essa que a confundia. Era obvio que ele, enquanto ela se despia, apreciava cada movimento, cada centímetro do seu corpo, e no entanto não havia nele qualquer reacção que não fosse de puro cavalheirismo.

E agora, neste momento, limitou-se a levantar-se e caminhou em direcção a ela e à porta. Ao chegar ao pé dela limitou-se a dizer com um sorriso:

-Não se preocupe, é apenas a minha mulher.

Ela ficou sim pingo de sangue.

-O quê? – perguntou enquanto se baixava rapidamente para apanhar a camisa para se cobrir.

-A sério, não se preocupe. – voltou a afirmar enquanto se virava para abrir a porta não lhe dando tempo para vestir a camisa. Ela limitou-se a pô-la atabalhoadamente à sua frente, cobrindo o peito enquanto ele abria a porta e deixava entrar uma mulher.

A mulher era loura, com o cabelo comprido a cair numa cascata de caracóis largos até quase à cintura, pequena e magra, com uma pele branca que lhe dava um ar de boneca de porcelana, um ar frágil e tímido. O rosto era lindíssimo, como se tivesse sido finamente desenhado, com uns lábios carnudos realçados por um batom de um encarnado vivo que fazia parecer que todo o seu sangue se concentrava ali. A maquilhagem suave que usava era perfeita para realçar os olhos verde jade, lindos e intensos, mas que espelhavam toda a timidez dela.

Vestia uma gabardine comprida que a tapava por completo até bem abaixo do joelho, com um cito que a ajustava à sua silhueta, o que deixava adivinhar que seria magra mas não deixava adivinhar as suas formas.

Trazia consigo uma caixa embrulhada.

Deram os dois um suave beijo nos lábios, ele fechou a porta e voltou a sentar-se no sofá. A mulher voltou-se finalmente para ela.

-Olá, eu sou a Rute. – disse numa voz quase apagada.

-Olá. Eu sou a Ana. – respondeu ela sem fazer a mínima ideia de como reagir à situação.

A mulher apresentou-lhe a caixa embrulhada.

-É uma prenda para si.

Ela agarrou a caixa com uma mão, mantendo a outra a agarrar a camisa que a cobria.

-Obrigada.

-Não quer abrir?

Ela assentiu. Dirigiu-se até ao sofá que estava desocupado e sentou-se, sempre sem largar a camisa, pousou a caixa na mesa, ao lado dos copos de vinho e abriu o embrulho apenas com a mão livre. A caixa no interior era de uma conhecida marca de langerie.

-Só pude tentar adivinhar o seu tamanho pela conversa que teve com o meu marido. Espero que lhe sirva…

Ana abriu a caixa e lá dentro estava uma deslumbrante combinação de cetim branco.

-É linda. Obrigado.

-Não a quer experimentar? – Perguntou a Rute.

Ana corou. Olhou para o homem de quem nem sabia ainda o nome que acenou afirmativamente com um sorriso calmo.

Respirou fundo, levantou-se, largou finalmente a camisa, expondo-se aos olhos dos dois, tirou a combinação da caixa e apreciou-a. Depois, pôs-se de pé e dirigiu-se ao espelho, vestindo-a e observando-se. A medida era perfeita e a peça pereceu moldar-se ao seu corpo. Sentiu-se deslumbrante e pôde ver o ar de aprovação de ambos os elementos do casal.

-Acho que estou bem, não estou?

-Está linda. - Afirmou Rute.

-Mas sinto-me… deslocada.

-Porquê?

-Sou a única pessoa aqui nestes preparos…

Rute aproximou-se dela.

-Compreendo.

Desapertou o cinto que lhe cingia a gabardine, desabotoou-a e abriu-a revelando que por baixo da mesma havia apenas um corpete com ligas encarnado bem escuro, aveludado, que lhe segurava as meias de seda, e um fio dental que fazia conjunto. As peças adornavam um corpo absolutamente pecaminoso, antes insuspeito por baixo da gabardine.

-Ainda se sente deslocada? – Perguntou Rute fixando-a nos olhos.

-Não, já não. Não me leva a mal se eu lhe disser que é uma mulher deslumbrante?

-Nada, mas olhe que a Ana não fica atrás…

-Ora. Não será assim tanto…

-Acha que não? Basta ver a expressão do meu marido…

Rute aproximou-se de Ana pondo-se ao seu lado e envolvendo-a pela cintura, ficando as duas voltadas para ele, ambas um puro contraste uma da outra, mas ambas deslumbrantes.

-Vê? – Perguntou Rute. – O olhar dele não nos larga.

Ana sorriu. Sentia-se absolutamente deliciada com a atenção que recebia, sentia-se plena e mulher, sensual e apreciava o momento. Sorriu ao homem e olhou para Rute, que tinha o olhar fixo em si, ficando com o olhar preso no dela.

Rute aproximou-se de Ana, chegando com o seu rosto bem perto do dela, e Ana, ao vê-la aproximar sentiu em si uma hesitação e vacilou. Rute deixou os seus lábios bem próximos dos dela, esperou um pouco para ver se a indecisão se desvanecia e acabou por sussurrar apenas… - Confia - …e com isto foi como se algo levantasse entre elas e os lábios de ambas colaram-se num beijo…

A sensação daqueles lábios nos seus foi estranha ao inicio, o sabor a cereja do batom, a suavidade do beijo, mas fechou os olhos e deixou-se levar, sentiu-se abraçada, envolvida, e abraçou, envolveu, perdeu o pudor, e aquele algo no fundo da sua mente que lhe dizia que isto não era normal, natural, foi subjugado por um mar de sensações que a invadiu e a electrizou, excitou-a, talvez apenas o facto de ser um fruto proibido ou então foi a suavidade com que foi tocada, acarinhada, a maneira como sentiu aquelas mãos femininas a explorar o seu corpo sem a urgência tão presente no toque masculino, com a calma da certeza de se ter todo o tempo do mundo, o facto de naquela envolvência não haver uma batalha mas antes o serenar da alma, sentir uma mão a percorrer o sei seio e tocá-la em todos os pontos certos…

…e, quase sem dar por isso, estava envolvida numa dança em que a musica parecia ser apenas ouvida pelas duas.

Esqueceu-se completamente da presença masculina que não dava qualquer sinal da sua existência, e atreveu-se a explorar, também ela, aquele corpo feminino que estava à sua disposição, e percebeu o quanto era natural a maneira como recebia e provocava um mar de sensações suaves mas avassaladoras.

Sentiu uma mão dela sobre o seu sexo, ainda por cima do tecido, a toca-la com uma lentidão e uma calma que faziam com que quisesse mais, que a faziam gemer baixinho, uma doce tortura…

…sentiu-se a querer um clímax ali, mas sentiu que não era urgente tê-lo, e quis tocá-la também e pela primeira vez sentir um sexo feminino nos seus dedos que não o seu, e tocou-a e deu-lhe prazer, sentiu o prazer dela…

Perdeu a noção de quanto tempo esteve entre beijos e toques, completamente envolvida pela calma, como se flutuassem as duas acima do chão…

…e depois sentiu um corpo quente que se colou às suas costas, que a envolveu, uns lábios que lhe beijaram o pescoço, umas mãos diferentes, mais agrestes, que lhe tocaram o peito, , e quebrou o beijo com ela para procurar os lábios dele enquanto sentia a excitação dele, a sua carne pulsante colada às suas nádegas…

-Vamos? – perguntou ele às duas num sussurro quando o beijo quebrou e a resposta não chegou em palavras mas em actos, seguindo todos eles em direcção à cama…

Êxtase.

A única palavra capaz de definir o que sentia naqueles instantes depois de uma série de orgasmos como não tinha memória provocados pelas bocas que percorreram todo o seu corpo procurando cada centímetro da sua pele, bocas que se haviam alternado no seu sexo, ora lambendo e sugando de forma meiga, ora de forma mais forte, que lhe procuraram os lábios, o peito...

Nem nos seus sonhos mais eróticos se atrevera a pensar que esta sensação podia ser tão envolvente e forte, e ao mesmo tempo calma e doce. O casal parecia estar ali apenas para si, para lhe proporcionar o prazer que ela recebia e lhes dava de volta.

Completamente cansada pedira-lhes para parar por alguns instantes e observava agora a atenção que Rute dava ao marido sorvendo-lhe o sexo meigamente, e sentia a gula de fazer o mesmo. Apesar do cansaço do corpo, a luxúria falou mais alto e chegou perto de Rute que prontamente partilhou o sexo dele, de quem ela nem sequer sabia o nome, com ela, fazendo com que ele fosse agora o centro das atenções.

Ele, deitado na cama, olhava-as apreciando cada movimento das bocas delas, cada movimento das línguas, os beijos que elas iam trocando ocasionalmente…

Rute levantou-se, levando-a consigo num beijo carregado de desejo e, num convite explícito, ofereceu-lhe o sexo do marido. Ela, por cima, fê-lo deslizar para dentro de si, numa tentativa de apagar o fogo que ainda lhe consumia o ventre.

-Devagar. – disse ele, querendo prolongar o prazer e o momento e ela fez-lhe a vontade, fazendo movimentos lentos com as suas ancas, recebendo-o profundamente, fodendo-o com calma, apreciando.

Rute oferece o seu sexo à boca do marido, ficando de frente para ela e cola a boca à sua, levando as mãos às suas nádegas e auxiliando e controlando os movimentos dela.

Ela e Rute acabam por ter um orgasmo quase simultâneo, abraçadas uma à outra, mas não quebram o auto-controle do homem que continua a fazer amor com ambas com desejo.

Ainda assim, saem ambas de cima dele e ela, com uma curiosidade que crescia a cada momento dentro de si, mas também com o receio de não saber o que fazer, faz com que Rute se deite ao lado do marido, prova-lhe o sexo, explora e deleita-se na experiência, sentindo-se realizada de uma forma diferente ao provocar-lhe um orgasmo.

Por fim, decidem fazer quebrar o homem o voltam a deleitar-se com o sexo dele nas suas bocas até provarem o precioso liquido…



***



Já vestida, eles acompanham-na até à porta do quarto. As despedidas são breves e ela sai.

Entra no elevador, vê-se ao espelho e repara no quanto o seu rosto reflecte um brilho de felicidade…

…e só então se lembra do marido e uma ponta de culpa aparece no seu rosto.

O caminho para casa é feito já com lágrimas nos olhos, sem saber o que fazer.

Evita sequer olhá-lo nos olhos, mesmo ao jantar e durante o resto do serão.

Já deitados, no escuro, ela diz:

-Tenho uma coisa para te contar…

-Diz.

-É grave…

Ele acende a luz e olha para ela, vê as marcas das lágrimas nos seus olhos.

-Fala.

-Primeiro que tudo, quero que saibas que te amo e que és a pessoa que eu quero ter ao meu lado, sempre.

Ele olha-a com um ar sério e expectante.

Ela conta-lhe resumidamente tudo o que aconteceu e explode num choro, esperando a reacção dele.

Ele abraça-a, espera que ela se acalme. Por fim ela olha para ele.

-Não dizes nada?

Ele olha-a, sorri-lhe de uma forma carinhosa e pergunta:

-Foi bom?

Ela, aliviada pela expressão dele, sorri também e responde:

-Extasiante…

Ele afaga-lhe o rosto, beija-a com suavidade, aninha-se a ela.

-E não queres contar com pormenores de requinte? – pergunta enquanto a afaga com suavidade.

-Queres mesmo que conte?

-Claro. – responde ele enquanto faz uma mão deslizar para o sexo dela.

Ela solta um suspiro enquanto se sente a acender novamente e começa:

-Bem, como te disse tudo começou por causa da greve…

Sublimação

Numa outra noite qualquer em que a minha companheira chegaria novamente tarde, ficamos de nos encontrar num café onde parava a maior parte do pessoal com que nos dávamos.

Cheguei por volta das dez, e embora fosse relativamente cedo, o ambiente estava já bem carregado de álcool. Cumprimentei-a, sentei-me ao lado dela, olhei-lhe para os olhos e percebi que também estava bem tocada, mas mantinha a compostura, como sempre, com uma classe absoluta.

Na mesa, connosco, estava o pseudo-namorado dela, o tipo com quem ela volta e meia dava umas, e que tinha a cabeça aterrada em cima dos braços, na mesa, completamente embriagado.

-Daqui não levo nada hoje… - Comentou ela piscando-me o olho.

-Realmente, não me parece.

-Levas-me a casa?

-Queres ir?

-Já não estou muito bem e não estou aqui a fazer nada. Leva-me. Pelo menos acordo fresca amanhã.

Levantei-me.

-Vamos. – Disse-lhe.

-Ela procurou a minha mão para se equilibrar a levantar, e assim que se ergueu largou-me sentindo-se já segura e saímos do café em passos mais calmos que lentos em direcção ao meu carro.

Abri-lhe a porta e ajudei-a a sentar, e dei a volta ao carro para entrar eu.

Levei-a a casa. Ela limitou-se a seguir de olhos fechados e não trocamos uma palavra pelo caminho. De relance, contemplava-a. Era uma criatura magnífica, a mulher mais poderosa que conhecera até então, apenas pela consciência que tinha do seu poder.

Cheguei à porta do prédio dela e estacionei. Ela abriu o olhos e olhou-me languidamente, meio entorpecida.

Sorri-lhe.

Ela atirou-se suavemente para o meu colo, repousando de costas para mim, com a cabeça assente no meu braço esquerdo.

A minha mão direita, livre, fazia-lhe festas no cabelo.

Baixei-me e beijei-a no rosto.

Quando me ia a afastar, ela virou a cara, os seus lábios procurando os meus…

…e aprisionando-os, enlevando-os, envolvendo-os, a língua macia desliza, procura, quer, dá-se, os lábios colam-se e aquele beijo começa sem vontade de acabar, a sua mão direita procura a minha, encontra-a, leva-a ao seio, guia-me na maneira como quer que eu a toque, com os dedos entrelaçados e o beijo continua doce, calmo, suave, quente, intenso, vibrante, pulsante…

Após uma brevíssima eternidade o beijo acabou. Ficamos os dois, olhos nos olhos, parados, sérios, estáticos, a respirar pesadamente.

Ela movimentou-se para se levantar, eu deixei-a, ela encosta-se no banco, leva a mão à porta, como que para a abrir, para, arrepende-se, olha para mim, séria, sedutora, tentadora, libidinosa, e diz:

-Mais!

Aquilo soou-me a uma súplica, um pedido, um comando, uma ordem inquestionável, uma vontade, e o carro arrancou sem destino e enquanto eu pensava onde queria ir o carro decidiu e rumou à fonte da telha, a alguns quilómetros de onde nos encontrávamos.

Ela encostou a cabeça no meu ombro e acariciava-me o peito com a mão enquanto eu conduzia. Sabia-me bem senti-la ali.

A mão dela desceu, vagarosamente, até chegar ao meu cinto que desapertou num movimento fluido, desapertou os botões das calças um a um, escorregou pela abertura dos boxers, fazendo-me ficar liberto, agarrou-me, sentindo-me duro na sua mão, disputando avidamente a minha atenção à estrada que corria velozmente debaixo de nós.

Queria parar para a apreciar, mas queria chegar para a apreciar ainda mais e isso fazia que eu continuasse a condução e me deixasse sujeitar a tortura.

Ela percebeu, a minha dualidade de sentimentos, divertiu-se, mais, deleitou-se nisso, baixou-se e tomou-me na sua boca, deslizou suavemente, sugando-me, envolvendo-me…

…fodendo-me!

-Ainda me fazes ter uma coisinha má… - Disse eu, incapaz de tomar outra decisão que não fosse continuar.

-Tem… - disse ela.

Com a minha súbita decisão de a querer, de querer tê-la, de querer satisfazer-lhe a luxúria, saciá-la, o motor do carro protestou e fez a estrada rolar mais depressa debaixo do carro.

O caminho foi rápido, mas demorei uma eternidade a chegar ao alto da arriba. E eis que chegado, com os sentidos sobrecarregados, me sinto a derramar por sobre a visão que me entra pelos olhos, e perco-me na imensidão do oceano banhado pelo luar, carregado de sulcos e reflexos, com as ondas salpicadas do branco mais puro, e ela recebe o meu despreendimento de forma sedenta, ansiosa, oferecendo-se a mim.

É ainda com o corpo sobrecarregado de emoções que estaciono, solto o cinto de segurança, desço os dois bancos, chego-me a ela, e retomo o beijo que abandonáramos antes, agora carregado do meu sabor, e acho que pela primeira vez perdi a consciência de ser eu, mas também não tomei consciência de ser outro qualquer…

…apenas fiquei num limbo intemporal, e abandonei-me.

As minhas mão percorreram a sua vastidão, ela que era simplesmente o meu mundo neste instante, retirando botão a botão das suas calças, procurando-a, tocando-a e sentindo a medida da sua excitação na humidade que aflorava do seu sexo.

Ansioso por reavivar a memória do ser sabor retirei a mão e levei-a à minha boca, provando-a.

-Dá-me. – ordenou ela.

Dei e ela provou-se e lambeu os meus dedos até ter tido para si todos os vestígios do seu sabor, devolvendo-mos a seguir com a sua língua na minha.

Os meus dedos desapertavam-lhe a camisa, ansiosos por a libertar e poderem tocar aquele peito suave. Mas a ansiedade era calma e graciosa, não se permitindo a que a pressa destruísse a intemporalidade do momento.

As línguas continuavam a dançar um tango em que ambos lideravam e eram submissos, nenhuma querendo o protagonismo, nenhuma procurando mais do que era procurada, de forma incontida, quando os dedos afloraram o mamilo que se erguia orgulhosamente suplicante pela caricia que tinha com certa.

A mão dela desceu sentindo-me percebendo o quanto tudo isto me elevava. A minha desceu, tentando libertá-la das calças que eram obstáculo à sublimação…

…e quando a tive livre descei os meus dedos deslizar nela, senti-la quente, desejosa, penetrá-la e sentir toda a sua textura, e baixei-me e provei-a e tive o seu gosto e quis que ela sentisse o que eu sentia e deixou de haver algo no universo que não fosse o prazer que eu lhe queria dar e o prazer que ela recebia. E que ela recebeu. E que deu de volta…

…inundando-me, dando-me o pleno do seu sabor, enchendo o meu paladar, pulmões plenos do seu odor…

…e quis tê-la, dando-me, e tomei-a, por inteiro e ela, sentindo o meu assalto arqueou as costas e respirou fundo, procurando ar e tornando-se uma muralha que eu tinha de conquistar…

…e dediquei-me, assalto após assalto, investida após investida até a conquistar e a ter rendida por completo ao prazer que era nosso e que eu quis ter, tempo após tempo, caminhando para a sublimação…

…e de repente diluímo-nos no mar ali ao lado e fugimos do tempo e esquecemos a existência.

Lembro-me de dar por mim, depois, com a boca colada à dela, corpo colado ao dela, oferecendo-nos um ao outro uma sensual explosão de luxúria, a pele a arrepiar das sensações, a tesão saciada, mas a vontade da alma absolutamente intacta e ainda mais emergente.

E depois…

Depois o mundo apanhou-nos de volta e o tempo voltou a fluir e tivemos de nos afastar.

Despedi-me dela com um beijo pleno de desejo saciado à porta do seu prédio.



Há momentos que nos definem, únicos, em que sabemos que éramos uma pessoa antes e passamos a ser alguém diferente, momentos que são uma evolução brusca nos nossos padrões de pensamento.

Este foi um deles.

O mundo deixou de ter uma forma definitiva para passar a ser algo extremamente moldável…

Menage

-Mas estamos aqui para nos olharmos ou para foder?

Fiquei sem qualquer reacção ao ouvir esta pergunta. Limitei-me olhar para a minha companheira e esperar por uma reacção dela.

Deixem-me falar-vos dessa minha companheira, que o foi ainda durante alguns anos. Um metro e setenta de mulher voluptuosa, loura, com o cabelo escorrido até ao fundo das costas, pele alva e que parecia cetim ao toque, rosto esculpido e lindo nos quais uns olhos castanhos luminosos residiam. Metaleira, tal como eu o era, usava sempre botas de “gaja” até ao joelho e, ou calças de ganga elásticas ou mini saias justas, um pouco acima do joelho e que deixavam pouco a descoberto daquelas pernas lindas, mas abriam o apetite de tentar descobrir o resto.

Já estava com ela há um ano e nunca tinha estado tanto tempo com alguém.

À nossa frente estava quem nos fez a pergunta.

Um metro e setenta e cinco do mais puro pedaço de mau caminho que já tinha visto. Cabelo preto e luzidio como as penas de um corvo, completamente liso e pelos ombros, com uma franja absolutamente direita pela altura das sobrancelhas perfeitamente desenhadas. Tez morena e um ar de miúda travessa e ao mesmo tempo de mulher absolutamente vivida, ou seja, a mulher mais perigosa que eu já conheci. Falava sempre com um tom de voz e uma pronúncia perfeita e com uma compostura que nunca se alterava. Tinha classe, muita classe. Era dona de um corpo esguio e curvilíneo que não deixava ninguém indiferente e era, nas suas próprias palavras “perfeita, absoluta e assumidamente puta”. Gostava de foder, e pronto. Mas sempre nos seus próprios termos. Não era engatada, engatava. Não era comida, comia.

Mas volto um pouco atrás, umas quantas horas.

Era o aniversário da minha companheira e combinamos estar com alguns amigos em casa. O objectivo era esperarmos por ela, visto que fazia um biscate como “barmaid” de um bar nas noites de fim de semana e só chegaria por volta das quatro da manhã.

O pessoal que era para aparecer cortou-se à ultima da hora, mas ela veio e ficou. Tinha-a conhecido duas semanas antes. Era amiga de uma amiga com quem eu tinha dado umas fodas valentes algum tempo antes. Ficamos amigos com uma velocidade espantosa e gostávamos realmente da companhia um do outro, de falarmos e trocarmos ideias.

Claro que não sou santo, e desde que a conheci que não me saia da cabeça a ideia de a levar para a cama, ou para o banco de trás do carro, ou para um banco de jardim, ou fosse para onde fosse, desde que a pudesse desfrutar. E fui-me apercebendo que a ideia não lhe desagradava de todo. No entanto havia a minha companheira que também se tinha tornado amiga dela e, por respeito, contínhamo-nos.

Nessa noite de Sábado, enquanto esperávamos pela minha companheira, vimos filmes, bebemos bem, muito bem mesmo, e, a partir das duas da manhã resolvemos jogar à copa. Regras simples: cada dez pontos acumulados faziam com que se tivesse de tirar uma peça de roupa. Uma vez que a dama de espadas por si só valia dez pontos, a cada ronda alguém tinha de tirar uma peça de roupa. O jogo acabava quando alguém já não tivesse mais roupa para tirar.

Parti em desvantagem, visto que tinha muito menos peças e adornos que ela, mas ainda assim ganhei o jogo. Consegui manter os meus boxers quando ela teve de tirar o seu fio dental preto de renda entre muitos protestos e choradinhos de “não me vais mesmo obrigar a ficar aqui nua à tua frente pois não?” e “não é justo, pá…”.

Escusado será dizer que não me levantei da cadeira. Se o fizesse a tesão que sentia e o estado em que estava enquanto a via fazer descer a peça de roupa ao longo das suas longas pernas seria notório e evidente.

-Pronto, estás satisfeito? – disse ela, nua à minha frente com um olhar desafiador.

-Quase… - disse eu.

Pediu-me um robe para se tapar. Disse-lhe que havia um pendurado atrás da porta do quarto. Ela sorriu ao ver que não me levantava e olhou directamente para a minha zona genital.

-Gostava de te ter ganho o jogo…

-Porquê?

-Porque o resultado da vitória parecia ser interessante…

Rimo-nos. Ela pegou no robe e cobriu-se, muito contra a minha vontade.

Com isto passava já das quatro, estávamos alcoolicamente alegres, já tínhamos fumado uns charros e a minha companheira não havia meio de chegar.

-Olha, vou-me encostar um bocadinho na cama enquanto ela não chega. Estou cansada… Não te importas, pois não?

-Não, fica à vontade.

Ela foi e eu fiquei a ver televisão enquanto esperava.

Dez minutos depois resolvi levantar-me e fui espreitá-la ao quarto. Ela estava estendida por cima da colcha, com o robe aberto. Sentiu-me a abrir a porta do quarto, olhou para mim e fez um sorriso matreiro e doce. Eu entrei no quarto e sentei-me ao lado dela. Ela virou-se para mim. A minha mão foi direita ao seu peito enquanto os meus lábios se colaram aos dela. A sua mão foi direita ao volume que havia nos meus boxers.

A minha mão desceu do seu peito e passou pelo rabo firma antes de se depositar na coninha imaculadamente rapada, suberbamente molhada e afirmativamente esfomeada de atenção. A sua encontrou a abertura dos meus boxers e agarrava-me agora o caralho rubro de tesão, masturbando-o.

-Eu sabia que valia a pena ganhar o jogo… - disse quando separamos os lábios.

-Gostas?

-Bastante…

-Queres?

-Na coninha, que eu já tou tão quente que só me apetece foder.

Levantei-lhe a perna e aproximei-me. Ela, sem me largar guiou-me. Assim que sentiu a minha glande, puxou-me com a perna e encaixou-se toda em mim.

Só posso dizer uma coisa: que fêmea sublime.

E foi neste momento que ouvi a porta da rua a abrir…

“Oh puta de sorte…” pensei. “Não se podia ter atrasado mais meia hora, caralho…”

Sentei-me rapidamente ao fundo da cama e arrumei-me da melhor forma possível enquanto ela se limitou a cobrir-se com o robe.

O ar, sereno como sempre, não dava o mínimo indicio de que segundos antes estava ser ser fodida por mim, o melhor que eu sabia e podia. Tirou um cigarro do maço que tinha deixado em cima da mesa-de-cabeceira e acendeu-o quando a minha companheira entrava no quarto.

-Só estão vocês os dois? – Perguntou ela com um olhar estranho, meio desconfiado.

-Só. – respondi eu. – o resto do pessoal cortou-se…

-Yá, também só consegui chegar a esta hora. Caraças, pá, que noite estúpida.

-Então?

-Houve para lá porrada e meteu policia e tudo…

-Mas está tudo bem contigo?

-Está. Só estou chateada por ter saído de lá tão tarde. E vocês?

-Olha, bebemos, fumamos, vimos filmes, jogamos à copa…

-Versão “strip” pelos vistos…

-Ya…

Nem era preciso camuflar ou negar. Já não era a primeira vez que jogávamos juntos, éramos adultos e sabia que ela não levava a mal. Se ela tivesse estado tínhamos jogado na mesma.

-E pelos vistos ganhaste tu…

-Foi.

A nossa convidada limitava-se a assistir à nossa conversa enquanto fumava calma e descontraidamente o seu cigarro.

-Bem, - disse a minha companheira – isto hoje foi complicado e estou mesmo a precisar de descansar umas horinhas. – Olhou directamente para mim – Vamos fechar os olhos por um bocadinho?

-Claro, se estas cansada…

E levantei-me da cama para a seguir. Ela saiu e quando eu ia a sair do quarto olhei para o monumento que apagava o cigarro e se espreguiçava na cama. Ela olhou-me com um sorriso, encolheu os ombros e piscou-me o olho.

Esticamo-nos em cima da cama do quarto ao lado. A minha companheira adormeceu quase de imediato. Já eu não conseguia. Parecia sentir humidade daquela cona divinal a envolver o meu caralho. Limitei-me a ficar ali acordado.

Eram uma onze da manhã quando a porta do quarto abriu, ela espreitou e me viu acordado.

-Posso pedir-te um favor? – Perguntou num sussurro.

-Claro.

-Levas-me? Combinei um almoço com o meu pai e odiava faltar…

-Na boa, dá-me só um minuto para me vestir.

Entramos no carro e arrancamos. É mau hábito conduzir com a mão na alavanca da caixa de velocidades. É um mau hábito, eu sei, mas há piores. A mão dela veio depositar-se em cima da minha.

-És um gajo mesmo fixe, sabias?

-Deixa-te de tretas…

-Não, a sério… Porque é que quando conheço gajos como tu já estão apanhados?

Ri-me.

-Não te rias. Adoro mesmo falar contigo, pá.

-E eu contigo. Não és só uma gaja boa. Também és uma gaja boa, o que é muito diferente.

E era verdade. Disse-o com toda a sinceridade.

-És um querido. Eu não digo?

Chegamos a um semáforo vermelho. Parei e conforme o fiz virei-me para ela, as nossas bocas colaram-se e este beijo foi diferente dos outros de há pouco. Não era tanto a tesão que ainda estávamos a sentir um pelo outro, mas também a amizade e o carinho.

Quebramos o beijo forçadamente quando os carros atrás de nós começaram a buzinar.

-Onde é que queres que te deixe?

-Por mim, qualquer sítio nestas vizinhanças está bem…

-Tenho de ir ali ao supermercado. Ficas por ali?

-Pode ser…

Ainda não tinha puxado o travão de mão e já estávamos envolvidos na continuação do que fora interrompido lá atrás.

-Tens noção de que quero mesmo foder-te, independentemente do resto, não tens? – Perguntei-lhe.

-Se tenho. Aliás, senti bem essa noção há pouco.

-Pena que tenhas de almoçar com o teu pai. Podias ter almoçado connosco…

-Mas posso aparecer por lá a meio da tarde. Que é que achas?

-Acho bem.

Saímos do carro. Abraçamo-nos, eu envolvi-a, demos um beijo tórrido no meio da rua, ela passa a mão no meu rabo, apalpando-me descaradamente e diz:

-Então até logo. – Afastando-se em seguida.

O polícia que estava de serviço à porta do supermercado olhou para mim com um sorriso que tinha a legenda “Se soubesses a puta de inveja que tenho de ti…”

Eu devolvi o sorriso com outra legenda: “quem pode, pode. Quem não pode, sai de cima…”

Eram umas quatro e meia da tarde quando ela apareceu. Ficamos sentados na sala a conversar os três, acerca de trivialidades e banalidades. A dada altura a minha companheira retirou-se para ir ao WC, e nós ficamos sozinhos. Não resisti, aproximei-me dela e beijei-a. Um beijo leve e solto, furtivo. Depois ficamos em silêncio a aguardar que a minha companheira voltasse.

Passaram uns dez minutos e não havia meio de ela voltar.

-Xiça, - disse eu – cá para mim caiu pela sanita…

Ela levantou-se.

-Eu vou lá ver…

E foi.

Aproveitei para fechar um pouco os olhos e descansar a vista, cansado como estava da directa que tinha feito. Devo ter perdido a noção do tempo, porque não sei mesmo quanto tempo passou.

Abri os olhos quando elas entraram na sala de mãos dadas. Passaram por mim, foram direitas ao quarto. A minha companheira olhou para mim e perguntou:

-Vens?

Pergunta estúpida, que nem mereceu resposta. Claro que fui.

Sentamo-nos os três na cama a olhar uns para os outros, eu completamente a leste. E eis que aparece a pergunta:

-Mas estamos aqui para nos olharmos ou para foder?

Fiquei sem pinga de sangue, a olhar para a minha companheira. Devo ter ficado lívido. Sem pinga de sangue na face, porque este desviou-se por completo para outra parte da minha anatomia que ficou “firme e hirta como uma barra de ferro” de repente.

A minha companheira olhou para mim e respondeu:

-Para foder, claro.

Dito isto agarrou-a e deu-lhe um beijo nos lábios e depois outro e depois um linguado e outro beijo e as bocas uniram-se e colaram-se e as peças de roupa começaram a voar para o chão do quarto e quando dei por isso tinha a minha companheira deitada de costas à minha frente a ser lambida e fodida, muito bem fodida por aquela mulher cheia de classe que tanto me apetecia.

Tirei a roupa, deitei-me de lado, ao lado da minha companheira e beijei-a, lambi-lhe e suguei-lhe o peito, lambi-lhe o pescoço, os lóbulos das orelhas. Ela só gemia enquanto me abraçava com um braço e com o outro segurava a cabeça dela enquanto ela lhe chupava o clítoris.

Ela, enquanto chupava a minha companheira, agarrou o meu caralho e masturbava-o lentamente, com suavidade. Depois tirou a boca daquela cona deliciosa que eu tão bem conhecia e continuou a fodê-la com dois dedos enquanto me começou a chupar.

Que sensação fenomenal, estarmos os dois a ser fodidos por ela.

Depois largou-me por completo e dedicou-se à minha companheira por inteiro, lambeu, chupou, até que, por fim, a minha companheira não aguentando mais lhe inundou a boca com um orgasmo maravilhoso.

-És tão boa… - foram as primeiras palavras que a minha companheira disse quando conseguiu articular algo de inteligível.

Ainda não tinham terminado os espasmos quando ela saiu do meio das pernas e me puxou para o lugar onde tinha estado.

Enterrei o meu caralho naquela cona alagada sem quaisquer cerimónias, cego de tesão como estava. A minha companheira fervia.

-Queres comer a minha cona? – Perguntou ela à minha companheira? – Queres?

-Sim… - foi a resposta suspirada.

Ela pôs-se de pernas abertas por cima da boca da minha companheira que primeiro apenas timidamente mas depois com muita vontade começou a chupá-la enquanto me sentia a deslizar na cona.

Ter aquelas mamas perfeitas à frente era mais do que uma tentação e eu ia-a beijando, chupando, lambendo, à medida que as minhas estocadas ficavam cada vez mais fortes.

As duas chegaram a um orgasmo quase simultâneo e eu não aguentei a tesão, vindo-me logo em seguida na cona da minha companheira. Sai de dentro dela ainda bem duro e a nossa convidada não se fez rogada, atirando-se a mim e fodendo-me com a boca, limpando o meu caralho na perfeição. Depois beijou a minha companheira, dando-lhe os nossos sabores.

De seguida deitar na da cama.

-É a minha vez. – Disse enquanto se sentava fazendo o meu caralho entrar naquela cona por inteiro. A minha companheira sorriu ao vê-la a começar a foder-me.

-Ele tem um caralho tão bom não tem?

-Divinal. – disse ela – Estava-me a saber tão bem hoje de manhã quando entraste…

-Desculpa ter interrompido.

-Não faz mal. Assim até foi bem melhor.

Eu estava nas nuvens e ao mesmo tempo estupefacto. Limitei-me a deixar-me ir na corrente. Também não conseguia pensar o suficiente para articular qualquer palavra, por isso…

A minha companheira levantou-se e pôs-se por cima da minha cara. Comecei de imediato a lambê-la e, elas beijavam-se e apalpavam-se e abraçavam-se e lambiam-se e desfrutavam-se…

Não há sensação igual a estar a lamber uma cona e a ser fodido por outra. A sobrecarga sensorial era demais e não demoramos a ter outro orgasmo quase simultâneo.

Arrastei-me para fora da cama e acendi um cigarro enquanto elas se dedicaram a um sessenta e nove delicioso. O quarto tresandava a sexo e os orgasmos que elas iam tendo sem parar uns atrás dos outros. Finalmente recomposto, voltei a juntar-me a elas e continuamos.

Nesse dia jantámos à meia-noite fazendo um intervalo nas nossas actividades e voltamos para a cama.

Aquelas duas fizeram-me ter oito orgasmos, coisa para mim inédita até então e que até à data ainda não se voltou a repetir.

Já não estou com a minha companheira e nos últimos anos apenas a vi a ela duas ou três vezes, mas quando relembro isto tudo ainda sinto uma pena de não poder voltar atrás no tempo…



Mesmo MUITO simpática...

Eram umas dez e meia da noite e eu não ia ficar.
Não que não quisesse (e pelos vistos a amiga da tua irmã também queria…), mas porque tinhas lá a tua irmã, os teus sobrinhos, a tua filha, a amiga da tua irmã…
Ainda mais, com a maneira como a amiga da tua irmã me olhava e com a vontade expressa dela…
“Porque é que ele não fica? Espalhávamos umas mantas aqui no chão da sala e podíamos ficar aqui todos, na boa…”
Claro que eu, quando ouvi isto, levantei o sobrolho.
Claro que tu, mais do que eu.
Claro que arranjaste logo maneira de me despachar dali para fora, porque estavas mesmo a ver que se eu ficasse ia haver salganhada. Não que tu te importasses. Aliás, notei como tu olhaste para a amiga da tua irmã, e o olhar não foi de todo inocente. E o dela também não. O problema é que a tua irmã também ali estava.
E como se isso já não bastasse, espalhaste-te ao comprido quando lhes disseste “…ele é só um bom amigo que me tem ajudado bastante. Não se passa nada entre nós…”. Foi o suficiente para a moça começar a tentar seduzir-me descaradamente.
Para te ser franco, depois do que disseste, e que me desagradou profundamente, até me estava a divertir com as tentativas da moça. Mas o que me divertia mesmo era olhar para a tua cara, com um sorriso amarelo estampado no rosto, e os olhos absolutamente furiosos…
…mais ainda quando eu olhava para ti com a minha expressão “Sim?!? Passa-se alguma coisa?”. Eu sei, eu às vezes (muitas vezes) consigo ser um grande filho da mãe…
…mas tu também!
Depois do jantar já tardio, no qual eu não bebi muito pois já sabia que não ia ficar, lá fomos todos beber o café ao pé da baia. Estivemos numa esplanada durante pouco tempo e voltamos para a tua casa, ou quase, uma vez que quando chegámos à porta eu anunciei que já ia indo.

-Já vais? – perguntou a amiga da tua irmã – Que pena, podias ficar mais um bocadinho…

-Não, ele tem mesmo de ir. – disseste tu, a disfarçar mal a fúria e o ciúme. Quase desatei à gargalhada ali mesmo. – Eu faço-te companhia até ao carro. Queres?

-Claro. – respondi eu, bastante divertido.

O resto do pessoal ficou em casa e tu vieste comigo até ao carro. Assim que viramos a primeira esquina tu não te contiveste mais.

-Aquela tipa é uma oferecida…

-Achas? Eu por acaso achei-a bem simpática… Isto para além de ser boa que até dói. Tu viste aquele corpinho?

-Vi, vi. – disseste tu irritada. – Por acaso não a estas a achar simpática demais?

-Achas?

-Acho.

-Bem, amor, quem semeia ventos, colhe tempestades…

-Que é que queres dizer com isso?

-Se tivesses sido sincera quando estiveste na conversa com ela e com a tua irmã na cozinha, ela teria sido menos “simpática”…

-Tu ouviste isso? Mas não estavas a dormir?

-Não, estava a descansar…

Ela calou-se. Acabaram-se-lhe os argumentos, sabia que não tinha nenhuma razão e isso estava a ser um sapo difícil de engolir…
…e eu, absolutamente divertido (já disse que, às vezes, consigo ser um grande filho da mãe? Claro que disse, mas reitero…).
Chegamos ao carro. Abracei-a e beijei-a, pronto para arrancar de volta para minha casa.

-Não queres fumar um cigarrito antes de ires?

-Claro.

Destranquei o carro, entramos, liguei o rádio, puxamos dos cigarro, acendemos, fomos fumando na calma, sem sequer conversar. Ela chegou-se para mim, eu abracei-a e, enquanto íamos fumando, meti a mão por dentro da t-shirt dela e ia-lhe acariciando os seios. Não me atrevia a mais visto que, apesar do adiantado da hora, nesta altura, quase verão, a rua, alem de bem iluminada, era ponto de passagem para quase toda a gente. Quer dizer, não passava ali uma multidão, mas nunca estava vazia.
Acabamos de fumar.
Ela virou-se para mim e beijou-me. Eu envolvi-a, esperando uma despedida. Ela chegou-se mais. Eu também.
Os beijos foram ficando cada vez mais quentes, mais envolventes, mais molhados. As nossas línguas recusavam-se a ser separadas. Os seus mamilos começaram-se a notar (ainda mais) por debaixo da t-shirt, sendo obvio que estava a ficar excitada.
Eu também, diga-se. O volume nas minhas calças era cada vez mais notório, tanto que, talvez devido à posição em que estava, comecei a ficar bastante apertado, ao ponto quase de me doer.
Empurrei-a para trás, no banco, olhei para um lado e para o outro, para ver quem passava lá fora, subi-lhe a t-shirt rapidamente e atirei-me aos seus mamilos duros e deliciosos, lambi-os, suguei-os, massajei-os. Ela gemia enquanto olhava para um lado e para o outro a ver quem passava, e se representava algum perigo de sermos vistos.
Paramos devido a alguém que passava, voltando a colar os lábios num beijo absolutamente carregado de volúpia.
A minha excitação não lhe tinha passado desapercebida, tal como a dela a mim, e ela agarrava-me o caralho por cima das calças, pondo-o ainda mais duro, se é que isso era possível.
Desapertou-me os botões das calças um a um, com destreza, meteu a mão por dentro das calças, procurou a abertura dos meus boxers, encontrou-me, agarrou-me e libertou-me da minha prisão. O meu caralho ficou ali, fora das calças, completamente duro e a pulsar de tanta tesão.
Quebrou o beijo para me olhar. Pude ver gulodice nos seus olhos, que brilhavam como os de uma criança a ver os brinquedos na manhã de natal.
Agarrou numa flanela, cobriu-me, e a sua boca voltou a colar-se à minha enquanto me masturbava. As pessoas passavam, algumas olhavam, umas com inveja, outras com desdém, quando se apercebiam do que se estava ali a passar.
A tesão era mesmo demais, e eu já não queria mesmo saber de nada.
De repente, quebrou o beijo, tirou a flanela e levou a tua boca direita ao meu caralho, fez-me deslizar até à garganta, fodeu-me com intensidade, chupou-me, comeu-me inteiro.
Não consegui aguentar muito e vim-me copiosamente na sua boca. Não parou enquanto não sentiu que a minha tesão quebrava e que começava a voltar ao normal.
Quando o sentiu, arrumou-me para dentro das calças enquanto colou a sua boca à minha para partilharmos os dois o meu sémen num beijo que podia derreter a Antárctida, mesmo sem o buraco no ozono.
Quando acalmamos, acendemos outro cigarro e ela preparou-se para sair.
Olhei para ela com um sorriso malandro.

-Em que é que estás a pensar? – perguntou ela ao olhar para mim.

-Queres mesmo saber?

-Claro que quero.

-E não te chateias com o que eu disser?

-Claro que não, amor.

-Estava a pensar que às vezes consegues ser mesmo puta…

Ela olhou-me com um ar de miúda marota.

-Pois consigo. – disse calmamente – Mas tens de admitir que sou uma puta simpática…

-Muito simpática…

Demos mais um beijo, ela saiu e foi de volta para casa e eu arranquei…

A procura

Parte I - The office

Há dias indolentes.
Dias longos.
Este foi mais um.
Sabe-me bem entrar em casa e nem sequer acender as luzes, avançar por terreno familiar, ir à cozinha, abrir o frigorífico, tirar uma cerveja gelada, abri-la, ir para a sala…
…acendo a televisão?
Para quê? Para ver repetidamente a mesma coisa?
Além disso está-me a saber bem o quase silêncio, só quebrado pelos barulhos que chegam do mundo lá fora, como uma invasão ao meu. Uma invasão não solicitada nem procurada.
Uma vez que não consigo fugir da cidade resolvo mergulhar nela.
Sento-me na minha varanda, defronte do prédio de fronte, onde as salas estão iluminadas, sempre. Um edifício de escritórios.
A minha cerveja sabe-me bem, gelada, a escorregar pela garganta.
Vejo os carros e as pessoas, poucos, que vão passando na rua a esta hora. A cidade morre à noite, deixando apenas algumas áreas vivas.
Esta não é uma delas.
Ainda assim gosto do brilho quase fantasmagórico que chega a mim e ilumina a minha varanda. Gosto do ritmo e do pulsar desta hora.
No edifício em frente vê-se alguma actividade ocasional. Gente que trabalha até tarde, que negligencia a própria vida em favor de um trabalho que, muitas vezes, nem dá satisfação, limita-se a pagar as contas ao fim do mês…
…e para quê?
Eis que de repente um casal entra na enorme sala de reuniões que está à minha frente. Sentam-se na mesa, pousam papeis, sentam-se próximos, falam…
…de estatísticas?
…de números?
…de quê?
Passam assim um longo tempo.
Por vezes para observarem algo melhor ficam mais juntos e ele passa a mão por cima do ombro dela. Ela nunca perde a concentração.
Ao fim de um bom bocado ela levanta-se e sai da sala. Ele fica sozinho, debruçado sobre os papeis, desperta a gravata, abre os botões de cima da camisa, põe-se mais à vontade.
Ela volta, trazendo dois copos na mão, presumo que com café. Ele abandona os papeis, encosta-se na cadeira descontraído e aceita um copo da mão dela, dá um gole. Ela senta-se na mesa, ao lado dele, beberricando também. Falam os dois. Ele não tira os olhos dela. Mesmo a esta distância nota-se uma atracção óbvia da parte dele.
Ela solta o cabelo e deixa-o cair ao longo das costas.
Ele olha-a. Levanta-se, chega-se a ela, agarra-a por detrás do pescoço, puxa-a para ele e beija-a. Ela não oferece resistência, antes, abandona-se. Abraça-o.
Quebram o beijo e ela tira-lhe a gravata, desaperta-lhe os botões da camisa, desliza pelo corpo dele, não sei se apenas beijando, se mordendo também, não consigo distinguir na distância.
Quando ela pára, ele despe-a, beijando-a ao longo do corpo à medida que faz deslizar a roupa e quando a tem nua senta-a na secretária, e encosta o sei corpo ao dela, beijando-a.
Observo com curiosidade e inveja o prazer daqueles dois estranhos. Projecto-me. Queria estar ali, queria ser ele. A minha cerveja jaz abandonada no parapeito e é-me impossível desviar o olhar.
Ele desliza pelo corpo dela, senta-se à sua frente e enterra a cabeça no meio das suas pernas. Ela apoia os pés nos ombros dele e arqueia as costas para trás. Apoia os cotovelos na secretária e olha-o. Mesmo a esta distância quase sinto a luxúria e o prazer na expressão dela. Sei-a ofegante, vejo os seus espasmos, vejo o orgasmo que ela lhe dá.
Ele levanta-se a seguir. Quere-a, de certeza. Eu quero-a e não estou lá…
Ela deita-se na secretária de barriga para baixo, ele agarra-lhe as ancas e entra nela por detrás, devagar, primeiro, mas com uma subida de intensidade, de desejo, até se sentir à vontade para se soltar.
Vejo o orgasmo dele e vejo-o sentar-se cansado. Repousam os dois um pouco e vejo-os em seguida a vestirem-se novamente, aprumarem-se, a procurar eliminar qualquer indicio do que se tinha ali passado.
Por fim agarram nos papeis e saem da sala.
Eu tenho a boca seca. Acabo de beber a minha cerveja.
Já não me apetece a calma, nem o silêncio. Saio de casa e entrego-me à cidade…
…em busca de algo…


Parte II - Noite

O ronco do motor da minha mota enquanto deslizávamos pelas avenidas sempre me reconfortou e deu uma sensação de liberdade quase inexplicável. Hoje não era diferente.
Acelerei pelas avenidas sem destino, deixando-me levar apenas pelo gozo de conduzir. Num acto de rebeldia tirei o capacete para sentir o vento na cara. Não era meu objectivo chegar a lado nenhum depressa, deslizava apenas tomando atenção ao que me rodeava.
Ocasionalmente pelas ruas observava os locais do costume cheios de profissionais da noite, via os carros a passar devagar e ocasionalmente a parar. Palavras trocadas num ápice com elas por vezes a entrarem, outras não.
Fui andando. A verdade é que o “algo” que procurava era completamente indefinido.
Acabei por estacionar a mota num parque subterrâneo, e sai a pé até um bar. Estive, vi música ao vivo, o bar estava cheio de gente gira, mas deu-me a sensação que todos eles procuravam também algo indefinível, embora não se tenham dado conta disso.
Acabei por sair, como tinha entrado. Voltei ao estacionamento, e cheguei ao pé da mota com a sensação de vazio de não ter encontrado nada do que procurava.
Sentei-me na mota enquanto ganhava coragem para ir para casa. Um carro entra na garagem. Um Porsche. Admirei o carro enquanto este se dirigia com um ronco surdo para um lugar bem perto de mim. O motor desligou-se, a porta abriu e vejo sair de dentro do carro umas pernas longas, bem desenhadas, a que se seguiu todo o resto de um corpo de mulher absolutamente fenomenal. Produzida, mas sem excessos, elegante, esbelta, com o cabelo comprido, liso, loiro a cair-lhe até ao meio das costas e a emoldurar o rosto.
Olhei-a, não como um homem olha para uma mulher, mas sim como alguém admira uma obra de arte. Admirei-a.
Ela olhou para mim e sorriu.
Puxei de um cigarro, acendi-o, dei uma baforada lenta.
Ela fechou a porta do carro e accionou o alarme. Em seguida guardou as chaves e procurou algo na mala que levava a tiracolo. Tirou um cigarro. Aproximou-se. Passos calmos e seguros. Firme.
-Tens lume? – Perguntou-me.
Puxei do isqueiro e acendi-o. Ela aproximou-se a acendeu o cigarro. Puxou também uma baforada longa e lenta. Olhou para mim com olhos penetrantes.
-Obrigada!
-De nada.
Ia para se afastar. Deu dois passos. Parou. Voltou-se para mim.
-Sozinho?
-Sim.
-De partida?
Limitei-me a encolher os ombros.
-Alguém à espera?
-Não. Ninguém.
Ela sorriu.
-Então porquê partir?
-Não encontrei o que procurava…
Ela olhou-me como se tentasse adivinhar os meus pensamentos.
-Se calhar não encontraste ainda.
-Pois, se calhar é isso.
-E o que procuras?
-Não sei…
-Então como é que podes saber se encontraste ou não?
-Acho que sei quando encontrar.
Ela sorriu.
Aproximou-se ainda mais, perigosamente mais, colou o seu corpo ao meu, passou a mão por detrás do meu pescoço, puxou-me para ela, colou os seus lábios aos meus…
…e foi um beijo dado com vontade, desejo, paixão, doçura, tesão, tudo…
…e depois acabou.
Ela afastou-se com o ar de uma miúda que tinha acabado de fazer uma travessura.
-Vem… - disse-me.
Deixei a mota no sítio e segui-a…


Parte III - Menage


Saímos do parque de estacionamento para a rua. Ela seguia à minha frente com passos seguros e nada apressados. Eu ia meio ao lado, meio atrás. Não me dirigiu mais uma palavra. Eu permaneci calado também.
Saímos da avenida e entramos por ruelas típicas desta parte velha da cidade. Acabamos por entrar num edifício antigo com enormes portas em madeira. Subimos a escada, também de madeira, envernizada, coberta com uma carpete vermelha que fazia que o som dos passos fosse surdo, mas ainda assim ressoasse.
Subimos ao segundo andar. A porta estava já entreaberta quando chegamos ao patamar. Ela entrou à minha frente, esperou que eu entrasse e fechou a porta. Desabotoou languidamente o sobretudo comprido que trazia, revelando-me aos poucos algo que eu não desconfiara antes, mas que só confirmei quando ela fez deslizar o sobretudo pelos braços. Por baixo apenas um cinto de ligas que lhe segurava as meias pretas e uma cuecas da mesma cor.
Com um gesto pediu-me o blusão que lhe passei para as mãos e que ela pendurou num cabide junto com o sobretudo delas. Depois arrastou um puf quadrado para o pé de uma porta que se encontrava ainda fechada. Sentou-se a olhar para mim. Fiquei sem saber o que fazer.
Ela abriu a porta.
Encostada à parede uma mulher ruiva, linda, vestida como ela, olhou-a. Depois olhou para mim. Voltou a olhar para ela e sorriu, em sinal de assentimento. Depois fixou o olhar em mim como um convite. Avancei, inseguro mas excitado.
Ela espreguiçou-se contra a parede. Cheguei ao pé dela e ela olhou-me com luxúria e languidez nos olhos. Algo receoso, toquei-lhe, fiz deslizar os meus braços pelos braços dela que se encontravam esticados para cima. Ficámos a centímetros um do outro.
Senti a fragrância dela. Suave. Não resisti e beijei-lhe o pescoço. Ela soltou um gemido de mimo. Continuei a beijá-la, subindo o pescoço, ao longo da face.
Os nossos lábios colaram-se. As minhas mãos deslizaram-lhe pelo corpo, sentindo-a, quente. Procurei o seu sexo. Estava completamente encharcada, pronta.
A loira continuava a observar-nos.
Masturbei-a um bocadinho, por cima do tecido e ela gemeu e contorceu-se, sinal óbvio de que as minhas carícias eram bem recebidas. Depois ficou a olhar bem nos meus olhos enquanto eu a acariciava.
Com um gesto, desprendeu-se de mim, agarrou-me pela mão e levou-me até à cama. Ajoelhá-mo-nos no centro. A loira arrastou o puf para dentro da sala e sentou-se ao fundo da cama.
Beijá-mo-nos com sofreguidão, com desejo. Neste momento ela apetecia-me mesmo. As minhas mãos desciam pelas suas costas e subiam pelo seu lado, acariciando-lhe os seios.
Sem me conseguir conter, baixei-me e suguei-os levemente, lambi-os…
…senti as mãos dela a descer e a sentir-me por cima da roupa, a agarrar-me…
…o meu cinto a ser desapertado…
Fiz a minha mão descer e senti novamente o seu sexo. Meti a mão por dentro das suas cuequinhas para sentir a sentir nos meus dedos. Ela fez o mesmo e agarrou-me, começando a masturbar-me devagar.
Olhei para o lado e a loira, sentada, abria as pernas e afastava o tecido para o lado revelando-me também o seu sexo enquanto se masturbava a ver-nos.
Por fim ela liberta-me, sente-me, revela-me ao olhar da outra que me olha gulosamente.
Baixa-se e, enquanto me masturba, começa por me dar toques de língua na ponta, como que para me saborear. Por vezes dá um ou outro chupão. Deliro com a sensação.
Sem aviso, engole-me inteiro e sinto-me chegar à sua garganta. Fode-me com a boca.
Depois para, quase quando eu estava a ponto de não aguentar mais, fica só a masturbar-me lentamente e olha para a loira.
A loira masturba-se enquanto nos vê. Consigo ver a humidade que escorre do seu sexo, a luxúria nos olhos dela. Fixa o olhar na ruiva. Levanta-se, e chega ao pé de nós. A ruiva segura-me e aponta-me para ela como se fosse um convite. Ela baixa-se e prova-me também. A ruiva acompanha-a e sinto as duas bocas que me envolvem e beijam, ao longo de mim, que me engolem.
A ruiva leva um dedo ao meu ânus e começa a massajá-lo ao de leve enquanto me lambe e chupa com suavidade os testículos e a loira me engole quase por completo.
Não aguento a sensação e sinto o orgasmo a chegar. Elas apercebem-se e sinto as bocas das duas a chupar-me a cabeça, devagar, para me provarem.
Não me consigo conter mais e sinto-as a saborearem-me por completo, e quando o meu orgasmo acaba vejo-as a beijarem-se, com as bocas cheias do meu néctar e a partilharem o sabor.
Afasto-me um pouco e deixo-as ficar, observando-as apenas, sento-me no puf onde a loira tinha estado, e vejo a ruiva empurrar a outra e descer pelo seu corpo, beijando, torturando…
…vejo-a encaixar-se no meio das pernas da outra e torturá-la, devagar, beijando-lhe as virilhas, a parte de dentro das pernas…
…a loira, geme, faz movimentos coma as ancas procurando a boca que se nega a tocar-lhe…
…a ruiva esquiva-se habilmente.
A ruiva estica-se e tira algo de debaixo de uma das almofadas da cama, um vibrador duplo. Dá-o a chupar à loira enquanto continua com a tortura.
A loira chupa-o deleitada e geme…
A ruiva pega no vibrador ao fim de algum tempo e roça-o ao de leve no seu próprio sexo. Depois, num só movimento mete-o fundo, bem fundo, de tal forma que quase lhe falta o ar…
…e depois tira-o e mete-o de uma vez só no sexo da loira…
…que solta um grito de pura tesão…
…prazer…
…- mais…- diz…
A ruiva senta-se à sua frente, agarra na outra ponta e faz-se introduzir.
Cada movimento de uma repercute-se na outra. O ambiente esta carregado pela tesão destas duas mulheres.
Os meus olhos estão pregados nelas, sem os conseguir desviar. Começo a tocar-me enquanto as vejo. Elas erguem-se na cama, ainda a foder-se devagar e colam as bocas uma à outra. Olham para mim, vêem-me a começar a ficar excitado novamente e chamam-me com o olhar. A ruiva agarra-me, beija-me chupa-me e dá-me à loira que faz o mesmo. Vão-me partilhando as duas.
Nisto a porta abre-se e um outro homem entra, já nu…


Parte IV - Luxúria


Ele entrou sem uma palavra no quarto.
Pôs-se de pé ao meu lado na cama, observando o que ali se passava. A loura agarrou-lhe de imediato o sexo semi-erecto, masturbando-o até à erecção plena para me largar em seguida e lhe dedicar toda a atenção com a boca, chupando-o e lambendo-o deleitada, deixando-me exclusivamente à ruiva.
Este misto de sensações, o próprio voyeurismo, excitava-me, e obviamente, excitava todos os outros também.
Elas tem um orgasmo intenso e abandonam por fim o brinquedo duplo, deitam-nos na cama e fazem-se penetrar por nós, aproveitando para se abraçar e beijar enquanto nos fodem.
Os meus sentidos parecem sobrecarregados pela quantidade de sensações que chega até mim. Apetece-me fechar os olhos para as saborear, mas não quero perder todo o quadro de luxúria.
Por fim, não aguentando mais, sinto o meu orgasmo chegar de forma incontrolável. Desisto de tentar prolongar a sensação, de lutar contra mim próprio e abandono-me…




Arrasto-me para fora da cama fisicamente esgotado e sento-me de novo no puf. Não consigo deixar de olhar enquanto vejo aquelas duas mulheres e aquele homem numa luta desigual…
…mas em que só há vencedores e em que a derrota é tão doce quanto a vitória.
Ao fim de um longo tempo todos quebram.
Aninham-se os três, na cama. Eu recolho as minhas roupas, e começo a vestir-me.
A loura abre os olhos sonolenta e vê-me, enquanto me visto.
-Vais? – perguntou-me.
-Sim, vou. – respondi com um sorriso.
-E encontraste?
-Sim, embora também não saiba muito bem o quê…
Ela sorriu de volta.
-Ainda bem… - e deslizou para o sono.





Alguns dias depois passei de novo naquela zona e tive curiosidade em olhar para o edifício.
Fiquei surpreso. Não passava de um edifício degradado, emparedado e na mais completa ruína, o oposto completo do sitio em que eu tinha estado.
Tinha encontrado realmente algo…
…fosse o que fosse!

Sabes que mais? Vou-te contar um segredo.

Queres ouvir?

Presta atenção, então.

Sabes porque é que estás aqui, neste preciso momento, a ler estas palavras?

Achas que é fruto do acaso?

Pois eu garanto-te que não.

Todos os momentos anteriores da tua vida te trouxeram aqui. o que se passou na tua vida hoje, o que comeste de manhã ao pequeno almoço, a tua noite de ontem, o que planeaste há um ano atrás, as escolhas que fizeste na adolescência, as que os teus pais fizeram por ti na infância… Desde o momento em que foste concebido este momento eras inevitável. A partir o momento em que os teus pais foram concebidos, a tua concepção era inevitável. e assim por diante, por todas as incontáveis gerações.

Desde o primeiro hominídeo, o ser humano era inevitável. Desde o primeiro primata, o hominídeo era inevitável. desde o primeiro mamífero, o primata era inevitável…

Desde a primeira célula, desde que o Sol se incendiou e começou a formar o sistema solar, desde que a via láctea se formou, desde a origem do universo…

É essa a tua única importância, a tua essência. Tudo o que fizeste ou irás fazer é absolutamente inevitável, e por mais que aches que podes alterar alguma coisa, por maior que seja a tua ilusão de que tens livre arbítrio e controlas o teu destino, vives apenas numa ilusão que te deixa contente.

Aquelas que pensas serem as tuas decisões não passam de reflexos condicionados por tudo o que se passou na tua vida ao leque de escolhas possíveis numa dada ocasião. Se alguém souber tudo sobre ti e sobre a situação em que te encontras pode afirmar com toda a certeza a decisão que vais tomar a seguir.

Não passas, no fundo de um mero efeito de uma causa anterior, efeito essa que se transforma em causa para efeitos posteriores.

Sempre foi assim e sempre assim será, portanto dou-te um conselho:

-Relaxa! Aproveita a viagem. Aprende. Observa. Absorve o que te rodeia e lembra-te que todos os que se cruzam contigo, até aquela pessoa que nunca viste e que não vais voltar a ver mas que apanha o mesmo metro que tu naquele dia, naquela hora, teve alguma influência na tua vida. Se ele não estivesse lá, o teu dia seria diferente e o mundo seria deferente.

Momentos...


-És tão boa… - disse o pintas, de óculos escuros, com o cigarro ao canto da boca e pinta de malandro.
-Eu sei. E…? – respondeu ela de uma forma tão segura que desarmou completamente o moço.
Ele quase se escangalhou a rir quando ouviu isto, do outro lado da paragem, mas manteve a compostura, o mais que pode, deixando escapar um sorriso irónico, olhando apenas meio de lado e com a sobrancelha levantada para o tipo, que entretanto ficara calado e mudo, sem qualquer espécie de reacção.
Deu mais uma passa longa no cigarro, e voltou de novo a sua atenção para o livro que estava a ler, embrenhando-se na leitura, mas não perdendo o sorriso.
O autocarro chegou, ele colocou o marcador e fechou o livro, só então olhando para ela, com um sorriso matreiro.
Ela fingiu que não viu.
Acabaram os dois sentados frente a frente nos bancos.
Ele manteve o livro fechado, ela fingia não lhe dar atenção. Ele sorria, com o canto do lábio, e com o sobrolho meio levantado, como quem diz inequivocamente “sei que estas a fazer um esforço consciente para não me ligar, portanto basta-me esperar…”, ela sentiu-se levemente incomodada com a atenção dele.
Ele esperou, ela acabou por lhe dar atenção.
Ele falou.
-Teve sorte…
-Tive? – Respondeu ela admirada – Porquê?
-Porque se a resposta que deu fosse para mim, a conversa não teria ficado por ali…
-Não?
-Não.
Ela fingiu não estar interessada, ele olhou pelo vidro, para as ruas lá fora.
Ela continuou a fingir, ele abriu o livro e dispôs-se a continuar a ler.
Ela sentiu a curiosidade típica das mulheres, sentiu o sangue a ferver, sabia que ela a estava a espicaçar e resolveu não ceder e ele fingiu que não a estava a espicaçar, que se ela não queria saber, por ele, tudo bem, e continuou a ler.
Ela ficou irritada por ele não insistir, ele ficou divertido por ela estar irritada.
A curiosidade falou mais alto e ela acabou por perguntar, mesmo não o querendo fazer.
-E o que é que dirias em resposta?
-Que, a ser assim, deves passar muito tempo em frente ao espelho…
Ela ficou levemente corada e ele com um ar extremamente divertido.
Ela percebeu que lhe tinha dado a desculpa perfeita para lhe mandar um piropo.
-Mas claro que a conversa entre nós nunca chegaria a este ponto. – Continuou ele.
-Não?
-Claro que não. Nunca te abordaria de uma forma tão deselegante.
Ela ficou a olhar para ele com um ar intrigado.
-Então como é que o farias?
Ele olhou bem nos olhos castanhos e meio rasgados dela, vendo-a. Só depois respondeu.
-Bem, se calhar esperava que um tipo qualquer se fizesse a ti de uma forma completamente ridícula e sem ponta por onde se lhe pegasse, metia-me contigo de forma a deixar-te curiosa, mandava-te uma boca foleira a teu próprio pedido, para te exemplificar que a conversa podia não ter ficado por ali, se bem que, apesar de foleira, seria subtil o suficiente, esperava um pouco para ver a tua reacção e depois dizia-te que nunca te mandaria aquela boca porque a minha abordagem a ti seria diferente da do tipo original, portanto a resposta nunca chegaria a acontecer.
Ela ficou atónita a olhar para ele que continuava com o olhar fixo nos seus olhos sem ceder um milímetro de espaço.
-Achas que seria uma alternativa bem sucedida? – Perguntou ele com um sorriso.
Ela ficou em silêncio, não porque não sabia a resposta, mas porque não a queria pronunciar.
Ele desprendeu o olhar dela do seu, finalmente, e voltou a olhar pelo vidro.
-Claro que isto envolveria um certo esforço da minha parte, e eu não sou um tipo esforçado. Além disso também acho que sejas afirmativa de mais para estar com todos estes jogos de subtileza. Se calhar até te sentirias um pouco desconfortável.
Fez uma pausa como que para arrumar os pensamentos, ou talvez apenas para espicaçá-la ainda mais.
-Por isso, acho que, ainda assim, existiriam alternativas mais viáveis…
Ele estava a ser acutilante. E estava a enervá-la. E ele sabia.
-Achas que sim?
-Tenho a certeza absoluta.
-Absoluta mesmo?
-Mesmo!
-E quais seriam?
-Bem, para te ser franco há uma que me ocorre e que se sobrepõe a todas as outras…
-E que é?
Ele olhou-a novamente nos olhos, profundamente, fazendo com que o resto do autocarro que a rodeava desaparecesse e ficassem apenas os dois ali, um defronte ao outro, e, com a maior calma do mundo, limitou-se a perguntar:
-Vamos?
O sangue dela gelou com a pergunta que não esperava, de maneira nenhuma. Ficou completamente sem reacção. Ele levantou-se, estendeu-lhe a mão, que ela agarrou sem qualquer resistência, e ele levou-a até à porta de saída do autocarro. Agarrou uma das pegas suspensas dos varões altos para manter o equilíbrio e agarrou-a pela cintura, puxando-a para si, e de forma determinada inclinou-se para ela, que não fugiu, e tomou-lhe os lábios de forma suave, mas num convite explícito para mais…

Às vezes há momentos...

...em que a minha visão se turva e saio do mundo real que se estende para lá de mim e entro no mundo real que existe dentro de mim.

É nesses momentos, fugazes, que consigo a paz e me reequilibro.

O mundo dentro de mim é austero, pouco luminoso, mas concreto, feito de linhas rectas, detalhado, organizado e planeado.

É um mundo sem desejo, sem frustração. Sem necessidade. Um mundo que progride porque é harmonioso, limpo.

E quando esses momentos acabam, e se cai no mundo cá de fora, onde achamos o caos por não conseguir perceber o plano, encalho de novo aqui.

E tenho de respirar fundo só para pôr a funcionar a minha mascara e conseguir encarar os exemplares de homo sapiens que se passeiam à minha frente. Este pináculo da evolução primata.

Muitas vezes acho que um chimpanzé barbeado faria menos macacadas…

Opera

Saí do trabalho. Os dias já estão mais compridos, por isso saio ainda com a luz do Sol a dourar o topo dos edifícios.
Subi a rua a pé e dei com uma rotunda, ornamentada com uma fonte, no centro de um cruzamento mais que movimentado. Olhei para a estátua de onde jorrava a agua e pensei para comigo a quantas coisa teria ela assistido ao longo do tempo em que tem estado ali.
Atravessei a estrada, até a rotunda, e sentei-me na fonte. Fiquei imóvel, fechei os olhos, respirei fundo, enchendo os pulmões e prendi a respiração para que nem o som da respiração me distraísse. Depois, dediquei-me a ouvir.
Chegaram até mim os sons da cidade, entraram em mim, aparentemente caóticos e descoordenados, mas ao mesmo tempo parecendo uma sinfonia, dirigida por um qualquer maestro oculto. Depois, à medida que os meus pulmões reclamavam ar, a batida do meu coração começou a fazer-se sentir nos meus tímpanos.
Expirei por fim, abri os olhos, mas deixei-me ficar ali, imóvel, como se fosse parte integrante da fonte à beira da qual estava sentado.
É estranha mas deliciosa esta sensação de que tudo à nossa volta se move.
As ruas estavam constantemente pejadas de homens e mulheres, todos eles com as suas mascaras padronizadas.
Os homens com fatos azul-escuro, cinza ou preto, camisas brancas, azul claro ou cor-de-rosa esbatido, variando apenas nas gravatas usadas. Todos iguais, como parte de um exercito estranho que vai para o campo de batalha armado com canetas, calculadoras e argumentos legais.
Elas, todas completamente diferentes umas das outras, mas todas com a mesma saia quatro dedos acima do joelho, todas com o cabelo pintado, para não se verem os brancos da idade, todas maquilhadas, umas mais, outras menos, conforme as marcas da idade, e com as distinções sociais a serem feitas pelo estatuto das marcas que cada uma usava, mas todas elas a quererem parecer competentes, sensuais e fortes.
Via-os e perguntava-me, quantos deles se empenharão tanto na sua vida pessoal como se empenham na sua vida profissional?
Quanta desta gente que anda apressada de forma tão sensual, e por vezes mesmo ousada, pelas ruas desta zona “in” da cidade, na esperança de cativarem os clientes os chefes, os desconhecidos que se cruzam, chegam a casa e tentam cativar os companheiros?
Quanta desta gente chega a casa desgastada pelo esforço que faz para ser outra pessoa durante um dia inteiro e não tem paciência para investir na relação com o companheiro ou companheira, e na relação com os filhos?
Quantas separações há, entre cônjuges, entre companheiros, entre pais e filho, por causa destas mascaras?
Quantos homens e mulheres não se queixam de que os respectivos companheiros não lhes ligam e caiem na tentação da traição com colegas de trabalho, porque estes elogiam e enchem o ego?
E porque é que os companheiros não ligam? Será tão fácil e normal seduzir alguém que está vestido para seduzir, como alguém que está com um pijama largo e desbotado e a cara cheia de creme para as rugas e onde nem se vê um centímetro de pele.
Estranha sociedade esta onde o sucesso se mede, muitas vezes, mais pela capacidade de sedução e afirmação do que pela competência e capacidade de realização. Onde se dá mais valor às relações institucionais do que pessoais. Onde se passa mais tempo a investir no projecto da empresa em que se trabalha do que no projecto de vida e no legado que se deixa aos descendentes.
A humanidade não é uma sociedade, é uma aglutinação de egos que não conseguem ver além de si próprios.
Estava perdido nestes pensamentos quando, na rotunda, dois carros colidiram gerando o caos no caos que já havia anteriormente. A orquestra de buzinas subiu num crescendo ensurdecedor, acompanhada pelo coro de gritos e insultos…

Segui o meu caminho, reconfortado por esta opera de compositor desconhecido

Bebi...

...há poucos minutos, um expresso em chávena gelada, no qual derreti um pouco de chocolate negro e misturei um pouco de canela.
O café, volumoso e cremoso, espesso, desceu-me pela garganta e reconfortou as duas partes de mim, ou talvez apenas a que interessa.
O grau de satisfação manteve-se, e foi isso que me fez pensar no vazio. Não num vazio qualquer, como o espaço, ou m qualquer lugar abstracto, mas sim aquele vazio que cada um trás dentro de si e que todos conhecem tão bem.
Esse vazio é voraz.

Todos procuram algo para o encher, ou, pelo menos, tapar. Raros o conseguem encarar de frente. A maioria oculta-o de si próprio, e a melhor maneira de o fazer é querer algo.
Quando alguém quer algo, abstraí-se do vazio e tapa-o com o desejo. E o vazio fica tapado até ao momento em que se obtêm o objecto de desejo.
Mas ei-lo que, obtido, deixa de ser objecto de desejo, logo, o vazio aparece de novo. Mas quando volta vem maior, pois tem somada a desilusão.
E é isto que nos faz criar um novo objecto de desejo. Desta vez, maior, mais inatingível e que provocará uma desilusão maior e assim sim diante, num ciclo que dura a vida inteira…
…ou até que o individuo se liberte do desejo.
É quando o indivíduo se liberta do desejo que deixa de ocultar o vazio e tem, forçosamente, de encará-lo. Quando o faz consegue finalmente perceber o que o pode preencher e pode até ser algo que ele não deseje, aliás, normalmente será.
Mas há um concorrente para que ele não deixe de desejar, ou seja, a sedução. É a sedução que induz o desejo e que, dessa forma, oculta o vazio.
Todos gostam de ser seduzidos. O sedutor faz-nos sentir bem com aquilo que somos, e tira-nos desse vazio, ainda que temporariamente, dá-nos uma melhor imagem de nós que a temos. E isso faz-nos sentir bem, e satisfaz-nos, mas é no momento a seguir que o vazio se instala de novo. E quanto maior for o apelo, maior o vazio que se sente a seguir.
Isto acontece com tudo na vida, e todos, de uma forma ou de outra, são seduzidos e seduzem. Somos seduzidos pela publicidade a um produto de limpeza milagroso que se compra, e criamos a expectativa, e caímos na desilusão de ver que ele se calhar nem chega a ser tão bom quanto o que usamos desde sempre…
…é-se seduzido por alguém, intimamente, e nos momentos seguintes à satisfação do ego realizamos que o vazio foi tapado apenas por instantes, e só conseguimos ter raiva de nós próprios, nunca da outra parte, porque a outra parte apenas se limitou a preencher o nosso desejo, por inteiro…
…e à desilusão soma-se a culpa.
Mas chega a uma altura em que alguns, poucos, se apercebem deste ciclo e resolvem parar e livram-se da sedução, e do desejo, encaram o vazio de frente e percebem que aquilo que satisfaz não tem absolutamente nada a ver com o que pensavam antes, com o que procuravam, embora nem tivessem a certeza do que era…
…e descobrem, sem o desejarem, que se satisfazem com as coisas mais absurdas, simples mas requintadas, exclusivas porque não tocam ninguém da mesma maneira…
…como por exemplo um expresso em chávena gelada, no qual se derrete um pouco de chocolate negro e se mistura um pouco de canela…
…e sentem-se plenos.

Acho que tenho de me debruçar mais neste tópico...

O começo do dia

Tinha acabado de chegar à paragem de autocarro, com o cérebro ainda meio dormente dos semi-sonhos tidos na pacatez da viagem de barco.
Eram sete e vinte da manhã. Sentei-me. Fechei os olhos, no meio desta rua deserta. Sabia que o “60”, que me levaria ao alto da Ajuda ainda demoraria um pouco a chegar, como demorava sempre a esta hora da manhã. Comigo, na paragem, apenas um tipo, talvez com os seus cinquenta, todo grisalho a fumar um cigarro.
De olhos fechados, nesta pequena rua paralela à avenida principal, os sons da cidade eram baixos, não incomodavam. A cidade parecia que tinha ficado inteira depois destas duas ou três filas de prédios.
Mas eis que o silêncio é entre-cortado por vozes altas, propositadamente masculinas, quatro ou cinco a uns cinquenta metros à minha esquerda.
Chatos. Não se pode estar em paz.
Olhei e, lá estavam eles, de volta de uma carrinha cinzenta que estava estacionada em cima do passeio com as portas de trás abertas. Mas a comoção não era acerca do trabalho. Não tinha mesmo nada a ver com o conteúdo da carrinha.
Ela acabara de passar por eles.
Como já estava de costas para eles, tinha um semi-sorriso sacana na cara. Caminhava calma em cima das suas botas de cabedal até ao joelho, com saltos agulha, bem altos. Acima estavam umas meias de mousse, pretas, mas finas. As botas faziam-lhe as pernas parecer ainda mais elegantes, e ela tinha algum porte no andar.
A saia, preta, de tecido, era realmente mini. Tão mini que mal lhe descia abaixo das nádegas, e enquanto ela andava, a saia revelava, alternadamente, um pedaço de cada uma delas.
Um blusão de cabedal, apertado, demonstrava o suficiente da sua silhueta para deixar adivinhar que para lá do blusão havia uma cintura fina e um peito equilibrado, nem grande nem pequeno.
No rosto alvo, mas mais alvo ainda pela maquilhagem, destacavam-se uns lábios desenhados num tom de cereja madura, mas não demasiado, aquele encarnado vivo e brilhante. Todo o rosto era enquadrado por um cabelo liso, escorrido, pelos ombros, pintado de preto.
Os homens lá atrás, primatas hominídeos, ganiam como babuínos no cio. Mandavam ao ar piropos com declarações de intenções despropositadas, até porque, se ela se virasse de repente e os enfrentasse, toda aquela masculinidade daria lugar à insegurança.
Eu olhei-a e vi claramente para lá das aparências. Via-a a vir do outro lado da rua, na minha direcção, e percebi que, para lá de toda aquela segurança aparente, no andar, na forma como se movia, na forma como aparentemente ignorava os comentários, na forma como estava acima dos olhares dos homens (e das mulheres, embora destas, uma pequena minoria pelos mesmos motivos dos homens e a larga maioria por pura inveja) estava o ego frágil que precisava deste tipo de afirmação para se sentir bem.
Ela seria uma mulher igualmente interessante, viesse vestida como viesse. Mas, obviamente, não seria tão notada, porque nesse caso seria preciso olhar para ela com olhos de ver.
Estava já quase à minha frente, quando olhou para mim, directamente, procurando em mim a mesma reacção que os outros lá atrás tinham tido. Acho que para sua surpresa encontrou os meus olhos directamente nos dela, e não nas pernas elegantes ou em qualquer outra parte da anatomia.
Levantei ligeiramente o sobrolho, e ela percebeu claramente que eu não olhava para a mesma pessoa que os tipos lá detrás ou que o meu companheiro temporário de paragem que por esta altura se tinha esquecido do cigarro que fumava e olhava para ela com os olhos cheios de…
…gula!
Eu olhava apenas para um ser pequeno e frágil com uma necessidade de auto-afirmação extrema.
Ela desprendeu-se do meu olhar, desceu da segurança que tinha anteriormente, o sorriso desapareceu-lhe da face, e cravou os olhos no chão, à sua frente.
Como que por magia, os comentários dos babuínos cessaram, o homem ao meu lado lembrou-se do cigarro, e ela seguiu o seu caminho.
Mas quando chegou a esquina a seguir, onde ia virar para o lado da avenida principal, e antes de desaparecer por entre os prédios, olhou ainda, inquiridora, na minha direcção…
Hoje!



Não me apetece ser quem sou.

Mas também não me apetece ser alguém diferente...



Acho que hoje vou, pura e simplesmente, não ser...

Há passagens de livros...


...que me deixam agradavelmente surpreendido. Uma delas é esta que transcrevo a seguir.

A passagem é de um livro de Poul Anderson, curiosamente chamado "O Avatar". Não tem absolutamente nada a ver com o filme do mesmo nome, com a excepção de que o argumento do filme é uma cópia descarada de um conto do mesmo autor, embora hajam diferenças fundamentais, como por exemplo o facto de a acção do filme se passar num planeta distante chamado Pandora (e quando pandora abriu a sua caixa...), e o conto se passar em Júpiter.
A história do livro é extraordinariamente boa, tanto que nos deixamos envolver pelos personagens e esquecemos que estamos a ler ficção cientifica. Mais, faz pensar no que é a vida, no que é o divino, e quanto, por vezes, enchemos a cabeça de conceitos errados.
Mas o livro começa desta maneira:

"Eu era uma bétula, esbelta na minha brancura no meio de um prado, mas não tinha nome para aquilo que eu era. As minhas folhas bebiam energia da luz do Sol, que perpassava através delas e lhes fixava o verde resplandecente. As minhas folhas dançavam ao vento, que tirava melodias dos meus ramos como se eles fossem uma harpa. Mas eu não via nem ouvia. Os dias, já a encurtar, deram-me um tom de mel-queimado; a geada acabou por me desfolhar, deixando-me nua; a neve estendeu-se em torno de mim durante a minha longa sonolência. Depois Orion perseguiu a sua presa para além deste firmamento e o Sol dirigiu-se para o Norte para brilhar sobre mim e me despertar. Mas de nada disto eu tinha percepção.

E no entanto eu tudo registava, porque vivia. Cada célula dentro de mim sentia de maneira secreta como o céu reluzia primeiro em todo o seu esplendor e depois mergulhava na quietude, como o ar soprava em vendaval ou uivava ou me acariciava num sonho, como a chuva caía fria a tamborilar, como a água e os vermes abriam caminho até às minhas raízes penetrantes, como as avezitas pipilavam no ninho onde eu lhes dava abrigo e tremiam, como a erva e o dente-de-leão me envolviam num amplexo, e como o húmus reverdecia enquanto a Terra avançava na sua rota por entre as estrelas. Cada novo ano que findava deixava gravado um anel no meu corpo, a lembrar a sua passagem. Embora não tivesse consciência disso, eu estava ainda em Criação e fazia parte dessa Criação. Embora não compreendesse, eu sabia. Era Árvore."
Gostava que um dia conseguisses ter um vislumbre, uma vaga percepção do que provocas em mim, do que me fazes sentir, do quanto eu te estou grato (mesmo quando às vezes – muitas vezes estou resmungão) e conseguisses perceber o quanto és importante para mim.
Tão importante como isto, gostava que tivesses a consciência da mulher que és para mim, da maneira como fazes o meu sangue entrar em ebulição só por estar ao pé de ti, e de te tocar a sentir e do quanto eu adoro, não só a sublime harmonia que é fazer amor contigo, mas como a perfeita alegria de te poder foder com paixão e tesão…
…e como a combinação das duas é a felicidade dos meus dias…

Como já há uns tempos que não escrevia nada de jeito de proposito para pôr aqui...

Estação de Metro, 11:20 da noite.

Os comboios não só encolhem, como se tornam mais raros, obrigando a que os poucos e raros passageiros se arrumem num canto do cais e apanhem grandes secas, aproveitem para por a literatura ou as notícias em dia, que se encostem para trás e fechem os olhos, sendo estas apenas algumas das miríades de formas possíveis para ocupar o tempo nesta situação…
…em que me encontrava neste momento,…
…com a exceção de que a estação estava de tal forma deserta que esperava, a qualquer momento, sentir um vento que levantasse a poeira no ar e fizesse rebolar um arbusto seco, ouvindo apenas o ruido de fundo provocado pelos ventiladores.
O som distante de uns saltos anunciou-me o fim da minha solidão vindo da outra ponta da estação, fazendo-me olhar naquela direção. Pelas escadas desce uma mulher, aparecendo primeiros as botas de salto, de cano alto, mais alto do que eu esperava, acima do joelho, onde acabavam, deixando ver um pouco da perna antes do começo do vestido curto, muito curto, colado ao corpo revelando-lhe as formas elegantes, prendendo-me a atenção enquanto chega ao fim da escada, revelando-se por inteiro como uma mulher bela, mesmo a esta distância, e caminha com passos de uma segurança absoluta na minha direção, fazendo notar que era obvio que sabia que o comboio pararia na outra ponta da estação, cada passo fazendo o seu cabelo preto comprido ondular, e acaba por parar praticamente á minha frente, não conseguindo eu, por um único momento desviar os olhos dela, descobrindo cada detalhe que estava velado pela distância, não conseguindo formular qualquer outro pensamento que não seja “BOA!”, expressão que aliás devo estar estampada no rosto.
Acho até que me esqueci de respirar…
Ela parece ignorar a minha presença de uma forma completa e total, atitude que eu, aliás, achei absolutamente natural. Mas eu não conseguia deixar de olhar para ela, a aguardava cada movimento dela para tentar notar mais algum detalhe, como a cor o batom que lhe transformava os lábios carnudos em armas letais, ou aqueles olhos de um azul frio e distante, que contribuía ainda mais para a sua sensualidade.
Mas o que mais impressionava, mais que as curvas do corpo desenhado, certamente, por Milo Manara, era a sua postura. Uma presença que eu não podia, e diga-se de passagem, nem queria ignorar.
O comboio chegou, apesar das minhas preces para que houvesse uma avaria na linha. Entrei na primeira porta do comboio, ela entrou na seguinte, a meio da primeira carruagem. Sentei-me no primeiro banco, virado para o fundo do metro, de costas para o sentido da viagem, enquanto ela se sentou uns bancos mais à frente, virada para mim. Tentei ignorá-la, não ficar embasbacado a olhar para ela, mas era quase impossível. Deixei o meu olhar vaguear, forcei-me a ler todos os cartazes informativos e publicitários, mas a presença dela era magnetizante e eu sentia que os meus olhos eram feitos de material ferroso. Tentando não ser demasiado óbvio, observava-a pelo reflexo nas janelas, dentro dos tuneis escuros, por onde podia absorver as formas desenhadas do seu corpo sentado.
Já ela, ignorava-me totalmente.
Chegamos à estação terminal, o Cais do Sodré, levantei-me pouco antes do comboio de imobilizar. Ela deixou-se estar sentada. As portas abriram, lancei-lhe um último olhar, de relance, e sai, subindo as escadas que me levavam à passadeira rolante que atravessa toda a estação. Da passadeira vi-a, percorrendo a estação quase deserta em direção às escadas na outra ponta com o seu passo seguro. Deixei-a para trás e tentei, finalmente retirá-la do meu pensamento.
Sai da estação em direção ao terminal fluvial, acendi um cigarro e, junto às portas de acesso ao terminal de embarque para o meu destino, verifiquei que o meu barco ainda não tinha chegado, pelo que me deixei ficar na rua a apreciar o meu cigarro. Quando o acabei, entrei e vi as caras familiares que apanham o barco àquela hora todos os dias, caras familiares apenas por circunstância, desconhecidos que estamos habituados a ver.
O barco não demorou. As portas abriram, os poucos que estávamos entraram para o barco. Como de costume, foi quase toda a gente para a parte de trás, para o pé do bar, a maioria homens que aproveitavam para se juntar e falar de coisas importantes, como, por exemplo, futebol, ou noutras ocasiões, futebol também (sim, o tema costuma variara bastante…) e alguns, poucos a subirem a escada para o primeiro andar. Como de costume, fiquei com meio barco só para mim. Fui para a primeira fila, que não é bem a primeira, uma vez que há uma outra, de fronte, virada para a ré, peguei no telemóvel, carreguei um dos jogos da moda e preparei-me para trucidar porcos, fisgando-os com pássaros.
O barco arranca em direção ao meu destino e eu recosto-me, fixando os olhos no telemóvel e tentando tirá-la do meu pensamento.
Ouço uns saltos a percorrer o corredor na minha direção. Tento não ligar e concentro-me no jogo. Consigo ver, pela minha visão periférica quando a pessoa chega ao meu lado, virando na minha direção, que é ela, e o meu coração tem uma palpitação súbita que advém desta realização e posso sentir os olhos dela cravados em mim enquanto chega à minha frente e se senta, cruzando a perna, tocando-me enquanto o faz, culpa da exiguidade do espaço, e fica com os olhos cravados em mim, um olhar firme, carregado e inquiridor. Já eu, encolho-me o mais possível no meu lugar, cravo ainda mais os olhos no telemóvel e reduzo-me à minha insignificância.
Ela fica, a olhar para mim, e eu a fazer todos os possíveis por fingir que não dou pela presença dela. É uma situação, no mínimo, enervante. Por fim, incapaz de ignorar os olhos azuis, faiscantes e frios que estão postos em mim, olho-a, meio a medo.
-Há pouco não desviavas os olhos de mim e agora ignoras-me? – Perguntou.
Senti-me a enrubescer, sem saber o que responder, se havia de pedir desculpa ou ignorá-la. Apetecia-me levantar-me, sair dali, descobrir um buraquinho e enfiar-me lá. Ela notou a minha reação muda e esboçou um pequeno sorriso pelo canto dos lábios.
Num movimento fluido, descruza as pernas, chega-se à frente no banco, estende o braço na minha direção, agarra a minha t-shirt, puxa-me para ela e colo os meus lábios aos dela, apanhando-me de surpresa e toldando-me por completo os sentidos, fazendo com que eu ouço o meu bater do coração nos meus ouvidos e fazendo, apenas num instante, que todo o meu corpo pareça ferver.
O beijo acaba repentinamente, como começou, deixando-me num estado quase catatónico.
Ela vê a minha reação e solta uma risada.
-O sexo forte… - comenta com ironia, o seu rosto iluminado por sorriso luminoso de muida traquina que acabou de fazer uma travessura. Depois levanta-se, inclina-se para mim, põe uma mão nas minhas calças, por cima do meu sexo entumecido, aperta ligeiramente, como se verificasse o meu estado de excitação, chega-se bem perto do meu ouvido e sussurra:
-Quando os Deuses querem castigar os mortais, respondem às suas orações.
Com um movimento rápido, fluido e subtil, desaperta-me o cinto e as calças, metendo a mão por dentro delas, tocando-me, e depois agarra-me as calças e puxa-as para baixo, expondo-me ao seu olhar, masturba-me por uns instantes, fazendo aumentar ainda mais a minha excitação, endireita-se, faz subir o vestido, revelando-me ainda mais do seu corpo perfeito, faz os dedos da sua mão direita entrarem na minha boca, fazendo-me lambê-los, o que eu faço com deleite, afasta a sua cueca para o lado, revelando-se a mim e toca-se com a mão insalivada por mim, soltando um pequeno gemido, agarra-me novamente, senta-se em cima de mim, fazendo-se penetrar de uma vez só, abraça-me e fode-me, invadindo-me com um mar de sensações difíceis de descrever, mas todas puramente animais, o desejo à flor da pele.
O orgasmo não demora a chegar para ambos, motivado pela animalidade do acto, pela sensação de transgressão, por sabermos que a qualquer momento uma das pessoas do andar de cima poderia descer e ver-nos, mas chega com uma intensidade absolutamente brutal.
Ela colapsa em cima de mim, por um breve momento, recompõe-se, levanta-se, passa a mão pelo sexo limpando os fluidos do meu orgasmo, leva a mão a boca, provando o meu sabor misturado com o seu, cola os lábios aos meus, fazendo-me provar, ajeita-se, faz descer o vestido, pisca-me o olho com um sorriso sacana e afasta-se, deixando-me ali sentado e mergulhado num êxtase difícil de racionalizar.
O barco chega ao cais logo em seguida, as pessoas que estavam no piso de cima descem, obrigando-me a compor as minhas roupas rápida e desmazeladamente, e aglomeram-se junto à porta enquanto esperam pelo final da manobra de atracagem para sair. Eu espero que a manobra acabe e que a porta abra para me levantar e aproveito esse pequeno intervalo de tempo para me recompor um pouco mais e ganhar folego.
Saio do barco e vejo-a caminhar à minha frente, com aqueles passos seguros, deixando-me sem saber como reagir. Aproximo-me dela, olho-a e sorrio, mas ela ignora-me completamente, deixando-me baralhado.
À saída do cais, um homem aguarda-a e a face dela abre-se num sorriso enquanto o abraça, se entrega nos braços dele e o beija. Ele leva-a até um carro de gama alta, estacionado ali ao pé, abre-lhe a porta, dá a volta ao carro e entra. Ela pausa por um momento antes de entrar, olha na minha direção, pisca-me o olho e sorri.

Depois entra para dentro do carro e fecha a porta…